Review – Tomodachi Life: Living the Dream é o jogo perfeito para os órfãs do BBB 26, mesmo que tente se autossabotar

Tomodachi Life Living the Dream - Dois Miis de homens negros dançam balé cercados de outros miis negros coadjuvantes

Com um sistema de criação impecável e inclusivo, a sequência aposta no carisma e na fofoca, mas perde o brilho ao se isolar em um ecossistema fechado e menos ousado

Tomodachi Life: Living the Dream me surpreendeu no mesmo nível que me decepcionou. O novo jogo da Nintendo é a sequência de um criativo simulador do Nintendo 3DS que focava em algo que todo brasileiro gosta: uma boa fofoca. Mais de uma década depois, essa fórmula ganha uma evolução no Nintendo Switch: maior, mais lapidado, contudo, menos esquisito e espontâneo. E o pior, menos social. Com o potencial de ser uma máquina de conteúdo viral hilário, o jogo acaba preso a casa do próprio jogador por conta de preocupações compreensíveis, mas difíceis de relevar.

Ficha Técnica

Tomodachi Life

Título: Tomodachi Life: Living the Dream

Plataformas: Nintendo Switch

Data de Lançamento: 16 de abril

Gênero: Simulação

Desenvolvedora: Nintendo

Distribuidora: Nintendo

Premissa: Crie versões digitais de seus amigos e fofoque o que eles fariam em uma ilha paradisíaca muito doida.

O que esperar de Tomodachi Life?

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Para quem não conhece, a proposta é simples. Pense em The Sims, que você constrói personagens e acompanha a sua vida. Só que em Tomodachi Life, o jogador não consegue influenciar muito fortemente os personagens. Ele é um grande espectador, como no Big Brother Brasil. Quase um amigo, na verdade, como o nome sugere. Afinal, em japonês, “tomodachi” significa isso. Amigo.

Com isso, a Nintendo espera que os jogadores encham as suas ilhas de personagens inspirados em seus amigos. Não apenas do mundo real, mas também celebridades e até personagens fictícios. A imaginação é o limite, ainda mais com o novo sistema de criação. Mais completo e flexível, a mecânica continua apostando no carisma dos Miis, bonecos simples e estilizados que acompanham os jogos da empresa desde o Nintendo Wii. Só que muita coisa mudou na sociedade desde então e, felizmente, a Nintendo ouviu. Se antes os Miis traziam opções limitadas que excluíam muitos públicos, agora todos são convidados a ilha de Tomodachi Life.

Foi muito divulgado a inclusão da opção de ajustar a orientação sexual e a identidade de gênero dos seus personagens, algo prometido ainda na época do primeiro jogo depois de uma gafe tremenda dos desenvolvedores (Deixo a fofoca no final da crítica para quem ficou curioso). E o jogo não só cumpre o esperado como faz isso de forma fenomenal, permitindo até mesmo que nasçam bebês de casais do mesmo gênero. O que mais surpreende, entretanto, é a expansão de opções visuais típicas de pessoas negras.

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Finalmente é possível criar basicamente qualquer estilo de pessoa negra. Cabelos crespos, afros volumosos, os dreads do Killmonger, cachos bem abertos, afro puffs… Qualquer corte de cabelo negro que você imaginar está incluso no jogo dessa vez. Nem o clássico risquinho na sobrancelha, muito querido aqui no Brasil, ficou de fora. A seleção de tons de pele também foi ampliada para incluir uma vasta seleção de cores, até mesmo fictícias. Uma grande melhoria em comparação com o título original. Seria ainda melhor se tivessem optado por uma seleção plena, com uma barrinha de cor e saturação, mas já é um dos sistemas mais abrangentes dos games.

Tanto que me inspirou a construir uma cidade majoritariamente preta, para comemorar. A minha ilha se chama Gueto, em homenagem ao site, e o meu desafio foi construir o maior número de pessoas pretas diferentes, entre amigos e famosos, para desafiar os limites desse sistema de criação. E chegando aos mais de 20 personagens, não precisei repetir opções em nenhuma vez. Todos parecem completamente distintos, ainda mais quando entra o molho especial desse jogo: o sistema de personalidade.

O que faz Tomodachi Life: Living the Dream realmente funcionar é a chance de presentear os seus personagens com manias, gestos e bordões típicos das pessoas da vida real. Há também um seletor de personalidade, em que o jogador aponta o quão esquisito, apressado ou sincero é um Mii. E a partir disso o jogo interpreta o personagem de uma forma tão assustadoramente próxima ao que você esperaria da pessoa real que vende de verdade a ilusão de que aquela é uma cópia digital de seu amigo.

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A minha versão digital de Érika Hilton fala seu bordão quando irritada

Uma das primeiras interações do personagem de um amigo com a minha réplica digital, por exemplo, foi idêntica ao nosso primeiro rolê pessoalmente juntos quando o encontrei em São Paulo, com papos bastante niilísticos sobre a vida. A minha versão virtual da deputada Érika Hilton é outra que adora filosofar e entrar em discussões acaloradas. Ao dividir as pessoas em 16 grupos de personalidade diferentes, provavelmente seguindo a teoria psicológica real de Myers-Briggs (MBTI), o jogo consegue prever com alguma precisão como essas pessoas reagiriam a diferentes situações.

As relações que nascem disso são um deleite de acompanhar. O problema, nessa edição, é as situações que podem presenciar. O jogo original era conhecido por ser muito fora da casinha. E emTomodachi Life: Living the Dream parece que os desenvolvedores decidiram pisar um pouco no freio na hora de surtar. Ainda existem situações bem esquisitas, mas elas parecem limitadas aos sonhos e informes do jornal da cidade. Mesmo essas não são tão impactantes quanto as bandas com músicas completamente ridículas do jogo de Nintendo 3DS.

Muitas interações também acabam se repetindo. Muito por parecer que os desenvolvedores precisaram se segurar na originalidade das ideias. Só acontecem duas situações que os personagens precisam de ajuda, por exemplo, e tem de ser socorrido por outros Miis: quando a coluna trava e quando tropeçam. Considerando que essa é uma dos tipos de experiência básico do jogo, espere presenciar bastante, o que pode enjoar fácil. Infelizmente.

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Momentos ridículos que tanto conquistaram no primeiro jogo são menos comuns

Outro problema que pode agravar essa sensação de repetição é o ecossistema fechado de Tomodachi Life: Living the Dream. Diferente do game de Nintendo 3DS, que incentivava uma interação não só no Miiverse (a rede da Nintendo na época) como no próprio Twitter, o jogo do Nintendo Switch dificulta ao máximo compartilhar experiências com os amigos. Em um jogo fortemente construído em cima do aspecto social, bloquear essa interação acaba sendo um grande tiro no pé.

No passado estávamos expostos não só as maluquices que aconteciam no nosso jogo, como também nas doideiras dos nossos colegas. Sempre parecia estar acontecendo algo novo e ao comparar nossas histórias a impressão era que o jogo era uma máquina infinita de besteirol da melhor forma possível. Antes éramos uma comunidade de malucos. Agora parece que falamos sozinhos.

A restrição provavelmente veio como uma forma de se isentar da culpa de conteúdos polêmicos criados pelos jogadores. Afinal, dessa vez não há nenhuma censura sobre o que pode ser dito pelos personagens. Os jogadores podem incentivar com que falem as coisas mais obscenas ou preconceituosas, uma liberdade que ajuda o jogo a ficar mais divertido, mas cobra um preço muito alto que, ao meu ver, não compensa.

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No meu jogo, a parceria de Ebony e Beyoncé já é realidade

Nunca vou esquecer de um momento em que minha personagem ia se declarar para seu crush na roda gigante e do nada o bondinho é invadido por uma rival no amor. Pena que só eu pude ver esse momento, já que o jogo se recusa a deixar que meus amigos façam parte da minha experiência. Acaba que o maior erro desse jogo social é insistir em ser antissocial.

Não é possível sequer compartilhar as criações de Miis ou as comidas e roupas que podem ser desenhadas diretamente na tela de toque do console. Sem poder baixar personagens, o jogador fica bastante limitado a sua imaginação e a sua capacidade de reconstruir por conta própria os amigos e famosos no sistema do jogo. Considerando que a progressão de coisas que são liberadas na ilha é atrelada diretamente a quantidade de Miis presentes no jogo, essa decisão de limitar o compartilhamente de Miis quebra até mesmo o ritmo, tornando o jogo mais lento para quem é menos criativo.

Essa não é a única escolha esquisita dos desenvolvedores. As opções de controles também são estranhamente limitadas. A tela touch, por exemplo, funciona na hora de montar o personagem, mas não é liberada nos menus ou até na interação geral com o jogo, o que tornaria tudo mais intuitivo. No Nintendo Switch 2, a situação é ainda mais estranha. O jogo, que teoricamente é atualizado para tirar mais proveito do console, não tem qualquer compatibilidade com o mouse, o que é no mínimo curioso, dada as claras inspirações em The Sims. A sensação é que tem uma forma ainda mais divertida de se interagir com esse mundo que simplesmente não foi implementada.

Tomodachi Life: Living the Dream

Gabriel Mattos

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“Jogo pra fofoqueiro de plantão”
Liberdade
Sociabilidade
Conteúdo

Veredito

No fim, Tomodachi Life: Living the Dream é muito bom em tudo que se propõe a fazer, mas sofre as consequências das escolhas que decide não tomar. A experiência da fofoca é maravilhosa, especialmente ao se jogar de dia, que os personagens são mais ativos. Tem menos conflitos negativos, como brigas e intrigas, quanto o anterior, mas ainda consegue servir drama e principalmente comédia de qualidade. Acaba que o maior erro desse jogo social é insistir em ser antissocial.

3.5

Esta crítica foi escrita com código cedido pela Nintendo para a versão de Nintendo Switch.

A fofoca prometida

A fofoca para quem ficou até o final. Quando o primeiro Tomodachi Life lançou, em 2013, foi logo depois dos Estados Unidos legalizarem a união entre pessoas do mesmo gênero. Ser gay ainda era alvo de polêmica, o que justifica que a Nintendo não queira incluir essa expressão no Tomodachi Life original.

Mesmo assim, aconteceu. Os personagens poderiam aleatoriamente ser gays, segundo eles, por uma falha no jogo. Um bug. Inicialmente as pessoas acharam que era intencional e foi uma grande celebração. Contudo, a Nintendo acabou pisando na bola e atualizou o jogo para corrigir esse erro de programação. O que, compreensivelmente, causou um grande rebuliço nas redes.

Na época, a empresa garantiu que o próximo jogo da franquia teria relações entre pessoas do mesmo gênero, mas eles queriam fazer do jeito certo. Com intenção e bem implementado. Não poderia ser na forma de um erro de programação que poderia ter mais consequências não previstas para o jogo. Desde então, a expectativa da internet era de que nunca mais teríamos outro jogo da franquia só para que não fosse necessário incluir essa diversidade. Contudo, surpreendendo a todos, o novo jogo foi lançado com todas as opções de inclusão possível. Não só da comunidade gay, como também da comunidade trans. Uma bola dentro gigantesca da Nintendo.

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