Crítica: O Diabo Veste Prada 2 é uma elegante denuncia ao pior do jornalismo moderno, sem jamais descer do salto

O Diabo Veste Prada 2

Longa surpreende com roteiro inteligente que comenta com propriedade sobre o estado atual do capitalismo tardio

A moda funciona em ciclos. O que foi tendência no passado pode voltar a ser no futuro. Uma regra que não vale apenas para calças boca de sino ou cropped tops, mas também para o cinema. Alguns filmes nascem apenas para atender uma tendência do mercado. Uma fútil busca pelo lucro fácil. Mas não há nada de fútil na moda, assim como não há nada de fútil em O Diabo Veste Prada 2. O retorno triunfal de Anne Hathaway e Meryl Streep às passarelas do cinema é uma denúncia contundente ao estado das coisas. O jornalismo está morto. Os influencers venceram. E só Miranda Priestly pode nos salvar.

Ficha Técnica

O Diabo Veste Prada 2 - Poster com o elenco em uma escada

Título: O Diabo Veste Prada 2 (Devil Wears Prada 2)

Estúdio: Disney

Estreia: 30 de abril

Duração: 1h 59min

Gênero: Drama, comédia

Diretor: David Frankel

Roteirista: Aline Brosh McKenna e Lauren Weisberger

Elenco: Anne Hathaway, Meryl Streep, Lucy Liu e mais

Sinopse: Uma organização misteriosa sequestra o Papai Noel e cabe a seu guarda-costas Cal Drift e o hacker ranzinza Jack O’Malley resgatá-lo de forças mitológicas.

O que achamos de O Diabo Veste Prada 2?

Antes de mais nada, preciso admitir. Eu não colocava nenhuma fé em O Diabo Veste Prada 2. Desde o anúncio, parecia o típico caso de franquia do passado que Hollywood revive apenas para lucrar com nostalgia barata. Pode até ter sido a intenção dos manda-chuvas que aprovaram o projeto, mas não foi dos produtores. Este é um filme que tem algo a dizer e é muito vocal quanto a isso. Por incrível que pareça, não é exagero nenhum dizer que O Diabo Veste Prada 2 é o filme mais importante de 2026.

Os filmes mais inteligentes sabem se aproveitar de seu contexto histórico para construir seu drama. E em 2006, ano em que o primeiro O Diabo Veste Prada estreou, o cinema estava repleto dessas histórias. O Amor Não Tira Férias é uma comédia romântica super leve com a eminente greve dos roteiristas de Hollywood de 2007 como pano de fundo. O Labirinto do Fauno construiu a sua trama fantástica nas ruínas da Guerra Civil Espanhola. A sequência de O Diabo Veste Prada aprende com esses grandes clássicos e se apropria do cenário atual do jornalismo para contar a sua trama. Um cenário nada luxuoso em que os trabalhadores são tratados como altamente descartáveis.

Esse é o pontapé inicial da história e o contexto que tece toda a narrativa. A história começa com Andy, que agora é uma respeitada jornalista investigativa, sendo demitida por mensagem junto de toda a sua equipe. Algo tão comum nas redações, hoje em dia, que tem um termo específico para isso: o passaralho. Aconteceu nos principais veículos de jornalismo cultural do Brasil, como a Legião dos Heróis, o Omelete e o Nerdbunker e se espalha para outras áreas. Na tecnologia a situação não é muito diferente, com centenas de funcionários demitidos no Xbox, estúdios de jogos sendo fechados a torto e a direito e uma sensação inescapável de insegurança.

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Esse é o cenário em que se passa o novo filme. Fica para traz o luxo dos anos 2000 e entra em jogo o ceticismo cru dos meados dos anos 2020. O mundo é um lugar diferente. Mais seco e menos otimista, o que acaba sendo refletido também nos aspectos técnicos do longa. Afinal, o cinema também é uma dessas áreas afetadas com o sucateamento extremo em nome do lucro. Não faz muito tempo que a própria Disney, que banca o longa, demitiu um departamento inteiro de arte da Marvel Studios. Ironicamente, esse sucateamento funciona em favor da trama.

Visualmente, apesar de trazer o mesmo luxo, senão ainda mais, nos figurinos, a produção parece mais pobre na iluminação e na fotografia. Tem um aspecto meio lavado como qualquer coisa produzida para o streaming nos últimos tempos. Normalmente isso prejudica a obra, mas aqui apenas reforça essa ideia de pessimismo e falta de perspectiva. Funciona como um comentário metalinguístico claramente não intencional da degradação inescapável nos tempos modernos.

A moda, que segue como o tema principal, acaba sendo outra ferramenta para explorar essa falta de perspectiva. Enquanto o primeiro filme foi produzido em um contexto em que a moda era vista como supérflua, hoje é mais uma peça de resistência. Vestidos desenhados por artistas humanos, com referências e intencionalidade, são um artigo de luxo na era da inteligência artificial, algo que não passa batido pelo roteiro. Aqui, a moda se torna mais uma aliada na luta da classe proletária, por incrível que pareça.

Diabo Veste Prada 2 Feio

A trama explora esse esquisito chá de revelação em que o que parecia parte da burguesia se mostra na verdade um filho ingrato do proletariado, em especial, na personagem da Miranda. Em comparação com o resto do elenco, ela é quem menos mudou. A Miranda representa a tradição em momentos de inovação inconsequente, um conflito que aparece também bastante ao longo da trama. Ela até se adaptou aos novos tempos, em que assédio moral não é mais tolerado, mas continua a mesma mulher inatingível de antes. Imponente, assertiva e severa, na brilhante interpretação de Merryl Streep. Mas nem mesmo ela está imune aos caprichos de empresários alienados.

Se você não é dono dos meios de produção, você faz parte do proletário. Uma dura lição que Miranda aprende quando o futuro da Runway entra em jogo em nome do lucro de acionistas. A chefona poderosa está em um campo de batalha completamente novo para nós e ver a forma controlada que ela navega por essas águas é um verdadeiro deleite.

Contexto neste filme é essencial. Afinal, ninguém mostra todas as suas cartas no altamente competitivo mundo da moda. Especialmente a Miranda. E por conhecermos tão bem essa personagem, que se tornou um marco da cultura pop e onipresente na imaginação coletiva, que o roteiro consegue falar tanto nas entrelinhas. Quando ela parece otimista nas situações mais tenebrosas do mundo corporativo, conseguimos enxergar através da fachada o que realmente está acontecendo. E ver isso se desenrolar na tela é simplesmente fenomenal. O roteiro respeita a inteligência do público e o talento de suas atrizes, que estão brilhantes em cena.

Diabo Veste Prada Emily

Anne Hathway, como era de se esperar, é o motor de toda a trama. A sua Andy está mais madura e confiante, depois de anos de experiência, mas comete os mesmos erros por essencialmente ser a mesma pessoa. Seu otimismo é o que a guia, um contraste bem interessante ao ar pessimista que cerca todo o filme. Aproveitando contextos completamente diferentes, os roteiristas souberam explorar a mesma dinâmica repleta de química com Miranda e Emily, que é outra âncora que puxa a narrativa para o mundo real. Enquanto a Amy representa a crença que o jornalismo precisa permanecer comprometido com a verdade, Emily representa alguém conformado com a inevitável mudança dos novos tempos.

Nessa nova trama, Emily funciona mais como um símbolo que uma personagem propriamente dita. A cara de para onde estamos indo como sociedade dando as costas para os valores em nome de sobreviver no capitalismo tardio. Ela não é a única alegoria que a história encontra para reforçar sua mensagem. O próprio cenário, de Nova York e Milão, reforçam esse contraste. A agitada cidade corrompida pela pressa produtiva e as ruínas do que um dia foi o maior império do mundo moderno. Tudo em O Diabo Veste Prada 2 funciona em perfeita sincronia, como modelos com seus movimentos precisos em um grande desfile.

O filme não se deixa cair em tentações. O projeto está repleto de participações especiais do mundo da moda que fariam os Vingadores se coçarem de inveja. Porém, essas referências nunca roubam atenção da mensagem principal. Servem como uma mera homenagem, como deveria ser. Como um lembrete que tudo que podemos perder ao ceder para os caprichos do capital. Toda a criatividade. Toda a visão. Toda o glamour que pode ficar para trás. O Diabo Veste Prada 2 está cheio de moda, como o público tanto esperava. Só não é uma moda vazia. É um lembrete. Em um mundo em que tudo está sendo sucateado, ser extravagente, original e luxuoso é um ato de resistência.

O Diabo Veste Prada 2

Gabriel Mattos

Diabo Veste Prada Mais
“Isso é tudo!”
Visual
Roteiro
Atuação
Direção

Veredito

Veio, fez o que tinha que fazer e o resto é história.

4.5

O Diabo Veste Prada 2 está em cartaz.

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