
O que os fãs mais esperavam de Street Fighter ficou na promessa
A rivalidade entre Street Fighter e Mortal Kombat é lendária. Mesmo quem não é chegado aos games reconhece que estes sempre disputam pelo título de maior jogo de luta de todos. E, em um ano que os dois chegaram aos cinemas, era esperado que essa rivalidade fosse continuar. Pena que seja por um motivo completamente diferente. Sem entregar sequer boas cenas de luta, a nova aposta da Paramount luta com unhas e dentes pelo título de pior adaptação de games da história. E sai ganhando.
Ficha Técnica

Título: Street Fighter
Estúdio: Legendary Pictures, Capcom
Estreia: 15 de outubro
Duração: 2h 01min
Gênero: Ação, comédia
Diretor: Kitao Sakurai
Roteirista: Gary Dauberman
Elenco: Noah Centineo, Andrew Koji, Jason Momoa, 50 Cent e mais
Sinopse: Uma organização misteriosa sequestra o Papai Noel e cabe a seu guarda-costas Cal Drift e o hacker ranzinza Jack O’Malley resgatá-lo de forças mitológicas.
O que esperar de Street Fighter?

O mais triste é o filme decepcionar até mesmo quem já esperava uma produção mais irreverente, como eu. Desde os primeiros trailers, o estúdio deixou claro que lutas e piadas seriam o foco principal. A promessa era um filme de ação bem-humorado, no mesmo estilo dos jogos. Uma boa história e personagens bem desenvolvidos nunca estiveram em primeiro plano. Nada que preocupasse os fãs dos games. Parecia uma troca justa, que infelizmente não rendeu bons frutos.
A princípio, a trama parece apenas uma desculpa. Uma forma de preparar o terreno para o torneio Street Fighter. Ryu ganhou fama mundial após vencer a primeira edição da competição, mas despertou um mal antigo no processo. Com medo das consequências, ele se escondeu. E com inveja, Ken desperdiçou a sua carreira correndo atrás de fama e dinheiro para tentar sair da sombra do amigo.
Poderia render uma ótima história ao refletir a trajetória de Ken como personagem ao longo do tempo. Ken começa nos games como apenas um visual alternativo do Ryu. Por muito tempo, os jogos sofreram com a busca de uma forma de diferenciar o herói até encontrar um estilo mais distinto em Street Fighter V. Este mesmo visual serve de base para a caracterização de seu ator, Noah Centineo, no filme, mas toda a jornada de autodescoberta é ignorada.
Isso ilustra bem o principal problema do filme. Street Fighter sofre para entender o que fez os jogos serem idolatrados por milhões. A impressão é que os produtores entendem a força que a franquia tem, mas não o que a fez chegar a esse nível. E com isso, não enxergam o potencial imenso em muitas oportunidades que surgem no longa e são desperdiçadas. Passam batido por uma edição,um roteiro e uma direção muito bem intencionadas, mas muito mal direcionadas.

O jeito que o filme trata a sua trama, por exemplo, como uma desculpa para o torneio principal é um sintoma claro disso. O declínio do Ken é construído como um trampolim para a história chegar em uma nova versão do torneio, organizada pelo M. Bison. Porém, quando o torneio de fato começa, o próprio filme não parece muito interessado nele. A primeira luta sequer é mostrada na tela. Descobrimos apenas o seu desfecho por relatos de personagens, um retrato de como os produtores não souberam sequer entender o que de mais valioso nas lutas.
Ao longo de todo o filme, os combates são editados de forma bastante atrapalhada. Cortes rápidos com um “zoom” imenso nos punhos que tornam difícil visualizar os movimentos com clareza. Muitos golpes dos games são representados nas lutas do filme de alguma forma, mas filmados com tanto desleixo que passam batido. Ao ponto de que, mesmo sem piscar por um segundo, é possível perder o momento sem perceber. O que torna as batalhas frustrantes e esquisitas. Irônico que, enquanto os jogos estão tornando os ataques mais estilosos a cada novo lançamento, o filme os represente do jeito mais sem graça.
A grande exceção é uma breve luta entre Ryu e E. Honda no meio do filme, em que a direção parece ter um breve momento de lucidez. Para começar, a cena acontece em um cenário repleto de vapor, o que torna este o único combate que a visibilidade limitada ajuda a construir a cena. E pra melhorar, toda a sequência é filmada como uma luta tirada de um filme de ação e comédia japonês. Com closes cômicos nas expressões dos personagens e um uso bem acertado dos efeitos especiais. Quase como se quando o diretor caísse em sua zona de conforto, as coisas funcionassem.

Pena que esta não é a realidade do resto do longa. A comédia é outro elemento que mira na bobagem de “Sessão da Tarde” e acerta na vergonha alheia. Segue os passos de outras produções irreverentes, como o Mestres do Universo, só que tão perdido quanto nas cenas de ação. É meio triste perceber que tudo é feito com boas intenções. Só falta completamente o senso. O filme tenta rir com os fãs, de piadas internas do jogo, só não exatamente do que os fãs estão rindo.
Com isso, o roteiro joga referências vazias nos momentos mais aleatórios possíveis da trama na esperança de que faça sentido na cabeça dos jogadores. Uma tentativa desesperada de meter um “se colar, colou” que nunca cola. É inofensivo quando acontece em menor escala, como na cena nada memorável do Ken destruíndo um carro. Mas quando sai do controle é difícil de olhar. O que acontece na caótica cena em que os lutadores decidem brigar em um bar e ficam soltando as provocações prontas, que nos jogos surgem antes do combate, como se tivessem peso o suficiente para sustentar sozinhas um diálogo. Spoiler: não têm (E nunca foram feitas para ter).

Nessa eterna caça atrás de expectativas dos fãs que sequer compreendem, os produtores deixam passar verdadeiras pérolas que poderiam ter salvado o filme.
As sequências de animação que abrem o longa poderiam facilmente ter rendido um projeto inteiro. Muito melhor e mais interessante do que o que tivemos. Street Fighter brilha nos poucos momentos em que é tratado como um anime de luta em um arco de torneio, uma direção que facilmente realçaria o que há de melhor na franquia. E frustra perceber que existe um filme maravilhoso que não aconteceu escondido dentro deste filme horrível. Assim como há uma protagonista maravilhosa que não brilhou para dar destaque a um protagonista tosco: a Chun-li.
Com a exceção da atuação sofrida de Noah Centineo como Ken e da Mel Jarnson como Cammy, todos os atores encarnam bem seus personagens. Não só no quesito visual, que é o grande forte do filme em geral, mas também nas expressões e trejeitos esperados de cada lutador. O Dhalsim de Vidyut Jammwal realmente parece o dos jogos, assim como o Guile de Cody Rhodes. O Balrog de 50 Cent é quem mais convencem nas lutas e o Don Sauvage de Eric André salva na comédia. Mas o que todos têm em comum é que eles soam como uma eterna promessa que nunca é realizada, o que fica ainda mais evidente com a Chun Li.

O primeiro sinal vem do Guile, que parece que vai ser um lutador muito forte, impressionante. O filme acaba e não temos uma luta sequer para nos mostrar do que ele é capaz. O Vega, de Orville Pack, segue na mesma linha. Temos vislumbres de que ele é um lutador fatal e poucas chances dele se provar como tal. Mas nenhum caso é tão grave quanto o da Chun-li, que tem todos os elementos de uma grande protagonista, mas não ganha espaço o suficiente para brilhar.
A sua história tem um peso dramático muito mais fácil de simpatizar. E uma motivação muito mais coerente, quando comparada ao Ken. A própria atriz, Callina Liang, parece entender o potencial da personagem para ser uma liga mais competente para a história. Ela tem um envolvimento mais próximo com o vilão, uma justificativa mais plausível para interagir com todos os lutadores e uma trama pessoal capaz de amarrar toda a história. Mas, novamente, a produção parece entender que não é isso que o público dos jogos quer e engaveta tudo o que ela poderia ser. Temos nem o seu icônico golpe de chutes dos jogos.
Street Fighter parece preso no mesmo lugar esquisito que o primeiro filme do retorno de Mortal Kombat. Tenta fazer de tudo para agradar os fãs, mas no final não faz nada para agradar ninguém. Faltou a coragem de entender o que a história realmente precisava para brilhar, que era uma visão mais ambiciosa, com uma base bem construída que permitisse que as lutas brilhassem de verdade.
Poderia ser grandioso, mas não passou de uma eterna promessa. Estratégia que insistiu até o fim. Nem a história tem um desfecho próprio, satisfatório. Prometeram concluir em uma possível sequência. Um soco no estômago do fã que esperava um combo do que há de melhor na franquia e recebeu um nocaute em suas expectativas.
Street Fighter

Veredito
Precisa treinar muitos combos para render uma boa sequência.






