No aniversário de 50 anos da cultura hip-hop, Caos Mutante surge como uma verdadeira carta de amor
Tartarugas Ninja: Caos Mutante marcou o retorno de Michelangelo, Donatello e seus irmãos aos cinemas após um longo hiato. Depois de uma esquisita incursão no universo live-action, a produção traz de volta estes heróis ao carismático mundo das animações, mas de cara nova. Deixando de lado um visual tradicional, o filme incorpora um estilo artístico único, completamente moldado pela street art do movimento hip-hop. A escolha tem uma conexão muito mais profunda do que aparenta com a essência dos jovens ninjas mutantes. Mas afinal, porque Tartarugas Ninja: Caos Mutante combina tão bem com o hip-hop?
Dos quadrinhos ao graffiti

Do ponto de vista artístico, Caos Mutante é intencionalmente uma grande bagunça, de uma forma muito positiva. O longa mistura sem medo influências que atravessaram a franquia ao longo através das gerações. Graffiti, pichação e quadrinhos antigos entram em colisão para criar um estilo inédito que conversa muito bem com as raízes dos personagens.
Seguindo a tendência iniciada por Homem-Aranha no Aranhaverso, apesar de ser produzida em três dimensões, a animação é estilizada com técnicas nada ortodoxas. Traços orgânicos, feitos quase como pinturas, são incorporados para transmitir com um maior impacto a atmosfera urbana da história, presente em todas as encarnações dos heróis. É um visual imperfeito, ousado e que transborda emoção, como as primeiras obras que introduziram esta família desordenada ao mundo em 1984.
O que começou como uma simples brincadeira engraçada entre amigos, logo passou para as páginas de um quadrinho independente nas mãos de Kevin Eastman e Peter Laird. As primeiras revistas dos heróis tem essa pegada artesanal que tanto impressiona no novo filme e, na época, deu origem a um império de brinquedos, desenhos animados e filmes live-action.

Com o passar do tempo, o quarteto de tartarugas guerreiras virou febre entre as crianças e protagonizou diversos projetos com um perfil bem distinto entre si, mas todos mantinham a mesma essência. Dos mais divertidos aos mais violentos, eram sempre histórias sobre a amizade entre quatro irmãos que superavam suas diferenças para defender uma cidade que os renegava.
A situação não é muito diferente em Tartarugas Ninja: Caos Mutante. No novo longa animado, Raphael, Leonardo, Donatello e Michelangelo, em suas próprias palavras, são “monstros excluídos da sociedade” que vivem nos esgotos de Nova York. Mas quando eles descobrem que existem outros mutantes espalhando uma onda de criminalidade pelas ruas, eles veem uma oportunidade de salvar o dia e conquistar a aceitação da cidade que jamais enxergou o seu valor.
A arte dos renegados

Esta corda bamba entre o amor e ódio que define a relação destes irmãos com a cidade é bem parecida com aquela que o movimento do hip-hop enfrentou desde o seu início, na Nova York dos anos 70. Pouco menos de uma década após a Lei dos Direitos Civis ser instaurada, que pôs um fim teórico na segregação racial entre negros e brancos nos Estados Unidos, a população preta ainda era tratada na prática como “monstros excluídos da sociedade” . Lutavam com as armas que tinham por espaços em que pudessem se expressar com liberdade. E, na luta por aceitação, a quebrada se voltou para a arte de rua.
Trens e paredes por toda a cidade começaram a ser tomados por assinaturas rústicas feitas com latas de tinta que ficaram conhecidas como pichações. A tendência rapidamente evoluiu, apresentando letras mais coloridas e arredondadas, como uma bolha: um estilo visual fortemente associado ao hip-hop. E por fim, cenários e personagens de desenhos foram adicionados às paredes, dando forma ao graffiti moderno.
Mas, assim como as Tartarugas Ninja precisam se esconder nos esgotos para escapar do preconceito da sociedade, os artistas de graffiti também precisaram fugir da perseguição dos políticos e da polícia local. Em 1972, o então prefeito de Nova York, John Lindsay, declarou uma Guerra ao Graffiti e passou a gastar milhões de dólares que os cofres da cidade não tinham para marginalizar essa população periférica.

Sob os olhos da lei, todos os “pretos, latinos, ou outros, nesta ordem” eram criminosos em potencial, tratados como monstros, sociopatas e viciados. Adolescentes passaram a ser perseguidos em estações de metrô e as festas lideradas por DJs e MCs começaram a ser invadidas por policiais, que exigiam uma permissão prévia da prefeitura. Era um combate ferrenho contra a cultura underground, subterrânea, que mirava nos principais elementos do que veio a ser conhecido como o movimento hip-hop.
O termo, cunhado pelo DJ jamaicano Afrika Bambataa em 1973, definia a interseção entre breakdance, DJs, MCs e graffiti. Era a essência da cultura preta da época, que borbulhava nas periferias do Bronx. Mesmo perseguida, esta população conseguiu encontrar na arte um refúgio, que denunciava as suas dores e também exaltava suas vitórias. Não demorou para este estilo se espalhar pelo mundo, invadindo todo o tipo de espaço e aparecendo em peças de teatro, séries de televisão e filmes como Caos Mutante.
O poder do hip-hop

Cinquenta anos depois, o rap acaba sendo o gênero musical que melhor captura a essência das Tartarugas Ninja. Explosivo, renegado e combativo, transmite naturalmente a complexa relação do quarteto com a cidade de Nova York, que segue sendo o palco de suas aventuras. Por isso que não só o rapper Ice Cube foi escolhido como a voz original do vilão Superfly, como o novo filme também inclui uma lista respeitável de músicas de rappers renomados, como De La Soul, Busta Rhymes, Ms. Lauryn Hill e Dr. Dre, explorando décadas da música negra.
As mensagens dessas canções complementam perfeitamente a própria história das Tartarugas Ninja. Adolescentes diferentes, marginalizados em sua própria cidade por algo fora de seu controle, que ainda se esforçam para tornar a sua vizinhança um lugar melhor. Era assim que muitos jovens pretos se viam nos anos 80 e segue sendo como muitos se enxergam até os dias de hoje. A conexão destes heróis com a comunidade preta é simplesmente inevitável.
E esta identificação vem sendo reconhecida por seus criadores com mais frequência nas novas produções da franquia. Nos quadrinhos de Eastman, co-criador dos heróis, os irmãos aparecem como meninos pretos quando assumem a forma humana em uma colaboração com os Power Rangers. Caos Mutante, co-produzido por Eastman, é apenas o caso mais recente.

O novo filme foi uma oportunidade do criador da franquia de retornar à cultura que inspirou seus quadrinhos originais. O produtor não só abraça a história do hip-hop na construção de sua obra, como ainda entrega o protagonismo para uma menina preta, April, reimaginando a clássica companheira das Tartarugas Ninja para uma nova geração.
E o projeto consegue trazer essa mensagem sem perder o foco do mais importante, que é contar uma boa história. Com isso, Tartarugas Ninja: Caos Mutante pode ser considerado a produção mais inclusiva da franquia. Seu estilo artístico exibe com orgulho anos de história e identidade, enquanto o roteiro explora os dilemas de quatro adolescentes, como quaisquer outros, tentando achar o seu lugar no mundo. Uma história leve e divertida, com algo diferente a oferecer para cada tipo de público, e que fica ainda mais rica com o poder do hip-hop.