Misturas bem improváveis e escolhas ousadas tornam Ritual of Raven interessante
Stardew Valley é um fenômeno incontestável. Nada mais relaxante que cuidar de uma plantação virtual do seu jeito enquanto nutre relacionamentos com os moradores locais. Difícil explicar exatamente o que tornou o jogo tão viciante, mas existe uma certa magia nessa fórmula que é difícil replicar. Muitos jogos parecidos foram surgindo, sem conseguir trazer algo de realmente novo que melhorasse a experiência. Pelo menos até o lançamento de Ritual of Rave.
Ficha Técnica

Título: Ritual of Raven
Plataformas: Nintendo Switch e PC
Data de Lançamento: 7 de agosto
Gênero: Fazenda
Desenvolvedora: Spellgarden
Distribuidora: Team17
Descrição: Um jogo de fazenda com magia em que as colheitas são feitas com programação.
O que esperar de Ritual of Raven?

O projeto do estúdio independente Spellgarden Games faz uma aposta arriscada. Ele mexe na mecânica principal que fez Stardew Valley um sucesso: as plantações. No clássico indie, toda a colheita é feita de forma manual, individualmente, em cada pedaço de terra. Se por um lado essa rotina tranquila tinha um aspecto um tanto relaxante, quando chegava a hora de cuidar de dezenas de legumes, a repetição podia se tornar um tanto tediosa. Para contornar esse problema, o jogo traz a solução mais nerd possível: programação.
Neste mundo, o jogador é um aprendiz de feiticeiro que precisa plantar os ingredientes para os seus rituais e poções. Por lidar com plantas de propriedades mágicas muito sensíveis, tocar na hora da colheita não é uma boa ideia. O melhor é usar construtos, uma espécie de robôs operados por magia. E para entregar comandos para esses robôs, o jogador precisa ordenar cartões usando a mesma lógica básica das linguagens de programação.

Pode parecer chato falando assim. E a princípio, até que é um pouquinho. Para não sobrecarregar os jogadores menos acostumados com computação, o game introduz aos poucos cartas com funcionalidades especiais. Quando o seu grimório tem opções variadas o suficiente, plantar, minerar e colher se torna absurdamente simples. Basta salvar os seus feitiços prontos e inserir em novos construtos para ter um exército de máquinas mágicas a seu dispor.
Com isso, a rotina de colheita fica muito mais simples. Mas essa não é a única diferença para o famoso Stardew Valley. A temática mística de magia transforma Ritual of Raven em uma experiência completamente diferente. A começar pelos rituais.
Diferentes rituais podem exigir partes diferentes de uma planta. Enquanto um pode precisar de folhas de acônito, outro pode preferir suas flores. Assim, não existe um único tempo indicado para colher suas plantações. Se faz necessário planejar de acordo com as suas intenções. Outra mecânica também incentiva uma consciência maior do jogador: as fases da lua. Ela pode ser mudada com um ritual e pode modificar o resultado de uma colheita, fazendo com que a preparação prévia antes de sair plantando a esmo seja bem importante.

Acho que já ficou claro a importância dos rituais para a história. Eles são necessários tanto para liberar áreas opcionais, quanto para avançar a trama. O roteiro é outra parte em que Ritual of Raven dá um show. Além de apresentar um elenco bastante carismático, cada personagem tem uma história de uma dor que precisa superar. Existem várias discussões sobre saúde mental bem francas e interessantes que surgem de forma orgânica, como seria entre uma roda de amigos. Uma forma inteligente de trazer maturidade para o game.
Maturidade que faltou nos sistemas sociais. Longe de ser tão profundo quanto o apresentado em Stardew Valley, as interações com os amigos neste game consiste em conversas simples ou pequenas missões secundárias que precisam de um certo item para serem cumpridas. Não há uma nuance como no sistema variado de presentes de outros jogos do gênero, o que faz com que na maior parte do tempo sequer seja lembrado que existe essa opção.

No fim, Ritual of Raven oferece uma experiência bastante interessante para quem gosta de jogos confortáveis, com muita plantação e pouco conflito. A trama traz um peso grande o suficiente para incentivar o jogador a continuar progredindo, mesmo que não existam batalhas ou qualquer coisa do tipo.
Explorar as possibilidades do sistema de feitiços de programação é bastante interessante, mas pode ser complexo para o público mais casual. Gostando ou não, difícil não achar o jogo esquisito. Mas ser meio estranho e cheio de personalidade em um gênero repleto de cópias genéricas pode acabar sendo algo realmente mágico.




