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Review – Dosa Divas é um prato cheio contra a escala 6×1, com um sabor de “Encanto” com “Steven Universe”

Dosa Divas CAPA

Jogo indie mistura ingredientes saborosos de grandes clássicos em receita de sucesso

Não basta uma receita perfeita para fazer uma comida gostosa. Também é preciso escolher os ingredientes certos. Misture o drama familiar de “Encanto” com a empatia sincera de “Steven Universe” até dar liga para a história. Acrescente uma pitada de robôs gigantes cozinheiros à gosto. Salpique o sistema de batalha dinâmico de “Mario e Luigi” com um toque especial de “Bravely Default” e o resultado é Dosa Divas, um delicioso RPG de turnos que surpreende logo na primeira mordida.

Ficha Técnica

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Título: Dosa Divas

Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2 e PC

Data de Lançamento: 14 de abril

Gênero: RPG de turnos

Desenvolvedora: Outerloop Games

Distribuidora: Outerloop Games

Descrição: Um império de fast food ameaça a humanidade de uma comunidade salva por duas garotas e um robô gigante.

O que achamos de Dosa Divas?

De cara, o jogo chamou a minha atenção pela coragem de trazer um elenco completamente racializado. As grandes protagonistas da história são irmãs de uma família misturada, com um lado afrolatino e outro indiano. Claro que a junção de culturas traria um certo conflito, mas o que me surpreendeu é que este não é o grosso da história. Apenas a base.

O que separa essa família não é nenhuma dinâmica cultural e sim a forma com que são atravessadas pelo capitalismo tardio. A grande vilã é a irmã caçula, Lina, que construiu um gigante império empresarial de comida ultraprocessada. Cozinhar é proibido em seu domínio e ela conta com uma horda de advogados e programadores prontos para lutar para acabar com a cultura de cozinhar presente nas comunidades locais.

Essa briga, tão presente no roteiro, é traduzida em jogabilidade, diretamente no sistema de combate do jogo. Advogados atacam com papéis burocráticos e o pessoal da tecnologia com seus computadores em rápidas batalhas de turno. O desafio é defender no momento certo, como na franquia “Mario & Luigi”, para evitar grandes danos. 

Essa proposta ajuda a quebrar o estilo passivo tradicional do gênero ao exigir que os jogadores estejam sempre atentos para contra-atacar. Também há um nível de experimentação exigido ao tentar descobrir as fraquezas aleatórias dos adversários, como em “Pokémon”. E ainda uma dimensão estratégia ao decidir quando fortalecer seus ataques com um sistema de bônus no estilo de “Bravely Default”. 

Cada turno, o jogador pode ganhar um ponto de bônus ao decidir não melhorar suas técnicas e guardar para o momento certo. Escolher quando ir com tudo e quando maneirar deixa as batalhas ainda mais dinâmicas, fugindo das armadilhas do gênero. Pena que a variedade limitada de movimentos disponíveis impeça que as lutas não se tornem repetitivas rapidamente. Sorte que a jogabilidade tenha mais a oferecer para tornar as coisas interessantes.

Afinal, cozinhar não é apenas um símbolo de pequenos rituais de humanidade que abrimos mão em nome da produtividade extrema do capitalismo tardio. A culinária está no centro de tudo que é feito no jogo. As missões principais e secundárias exigem que o jogador descubra receitas para agradar moradores de cada cidade. Até nas batalhas, a forma mais efetiva de se recuperar é com comidas preparadas pelas próprias protagonistas. E a forma como isso se materializa no game é através de minigames rítmicos que podem ser acessados a qualquer momento.

Não é nada muito complexo, mas vende a fantasia gastronômica. O jogo pede que se reúna ingredientes pelo sabor e origem para montar pratos especiais. Depois é só apertar os botões na hora certa em uma variedade razoável de minijogos. O problema é quando o jogo tenta tornar as coisas mais complexas e acrescenta obstáculos que só torna a experiência mais irritante. Novas opções de minigames ou dificuldades mais exigentes seriam alternativas mais interessantes.

Outro problema ainda mais grave é a exploração. O game oferece meia dúzia de cidades para conhecer, porém os mapas são visualmente difíceis de distinguir. Explorar o mundo é uma experiência confusa e segmentada, que acaba afastando mais que incentivando o jogador a interagir com o mundo. A vontade é simplesmente correr até os pontos indicados no mapa para começar o próximo ponto da história, que sempre compensa a confusão.

O roteiro, de longe, é onde Dosa Divas se destaca. A história sabe equilibrar muito bem os temas sociais latentes com um drama familiar complexo e verdadeiro. Enquanto tece um cenário palpável de exploração, com uma rotina tão cruel de trabalho quanto à escala 6×1, e condições ainda mais absurdas de convívio, o texto coloca como algozes pessoas que claramente têm um coração bom. Impossível não se questionar o que aconteceu para essas pessoas chegarem nesse ponto, o que desperta a curiosidade do jogador.

Dosa Divas rompe completamente com o maniqueísmo típico dessas histórias. A intenção não é vilanizar empresários ou vitimizar a família destruída pelo capitalismo. A proposta da história é entender e investigar o que poderia ter sido diferente. É analisar o lado mais humano em heróis e vilões que o levaram a seguir esses caminhos e questionar se realmente merecem esses rótulos quando o verdadeiro culpado é um sistema voraz e insaciável. Uma sensibilidade que lembra bastante “Steven Universe” com personagens que parecem tirados de “Encanto”.

Dosa Divas

Gabriel Mattos

Dosa Divas Comida
“Um prato cheio contra a escala 6×1”
Visual
Roteiro
Jogabilidade
Exploração

Veredito

Um sabor de RPG socialmente crítico, como Final Fantasy VII, em uma porção expressa,

4

Código do jogo cedido gentilmente pelos desenvolvedores para análise para o console Nintendo Switch 2.

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