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Review: Discounty desperdiça o potencial de um jogo confortável com uma história traiçoeira

Discounty CAPA

Ao tentar passar uma mensagem crítica sem escolher um lado, game acaba abafando toda a sua proposta

Discounty é como um lobo disfarçado de cordeiro. O game de estreia do estúdio europeu Crinkle Cut Games promete uma jornada crítica que questiona a ganância insaciável do capitalismo. Ainda mais empolgante é perceber que a obra usa a natureza interativa da própria jogabilidade para contar sua história, uma construção bastante elegante presente em raros games. Bastante promissor nas primeiras horas. Porém, quanto mais tempo se passa com Discounty, mais claro fica que tem algo de suspeito nesse nem tão inocente simulador de supermercado.

Ficha Técnica

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Título: Discounty

Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series X|S, PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch 1/2 e PC

Data de Lançamento: 25 de agosto

Gênero: Simulador

Desenvolvedora: Crinkle Cut Games

Distribuidora: PQube

Descrição: Um jovem assume o mercado franquiado de sua avó em uma cidade pequena.

O que esperar da história de Discounty?

A base por trás do game é bem simples. Discounty incorpora muitas influências de Stardew Valley para construir o jogo de conforto ideal. Tamanha é a influência que por vezes é difícil distinguir o que é homenagem e o que beira a cópia. Desde o visual caprichado de pixel art ao mapa condensado da cidade, passando até mesmo pela temática ecoativista… Difícil escapar da sensação de nostalgia.

A própria premissa do enredo não sai desse lugar comum. Em Discounty, o jogador assume o papel de um jovem insatisfeito com a vida na cidade grande que decide tentar a sorte assumindo os negócios da família no interior. Só que ao invés de cuidar de uma fazenda um tanto versátil, o coração do clássico indie, temos um não tão simpático supermercado, inédito na cidade interiorana.

A metáfora do que esse mercado representa não é nem um pouco sutil. É um conflito direto entre o tradicional e o progresso, a valorização da cultura local e a invasão da cultura de massas, as pessoas que colocam seu coração em negócios pequenos e as megacorporações que enriquecem da exploração em massa. O conflito está bem explícito no roteiro, ao menos na teoria. Na prática, as coisas não são tão simples.

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Ao mesmo tempo em que ergue argumentos para defender essas críticas, Discounty prepara o terreno para conseguir redirecionar a culpa para terceiros ao longo da trama. Até chega a elaborar esboços de um questionamento mais amplo ao modelo capitalista em seus momentos iniciais, mas prefere procurar uma saída mais fácil para a questão. A culpa é empurrada para desvios de indivíduos específicos, não do sistema como um todo.

Seja em uma tentativa genuína de subverter expectativas ou uma crença sincera de que os problemas do capitalismo podem ser corrigidos com ações individuais, o arco final de Discounty contradiz completamente a mensagem que o jogo pareceria querer construir ao longo do resto da trama. A sensação final é de uma experiência confusa, sem foco e um tanto amarga, em especial pela forma de como a própria jogabilidade é essencial na construção dessa mensagem.

A jogabilidade presta?

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O coração da experiência é gerenciar o mercadinho local. Como todo jogo do tipo, o jogador começa com uma loja sem muitos recursos e personaliza do seu jeito conforme desbloqueia novas opções. A princípio, organizar prateleiras, fechar negócios com os fornecedores locais e servir os moradores locais é um tanto divertido. Até mesmo o sistema de vendas, que exige cálculos rápidos durante a operação do caixa, traz um gostinho de conquista peculiar. Até que as falhas começam a aparecer, só que de forma bastante intencional.

Como pode se imaginar, existe um lado bem chato de coordenar um mercado. Registrar manualmente cada compra é estressante, ainda mais quando uma fila de clientes impacientes começa a se formar. Achar espaço e uma configuração legal para o mostruário de produtos também é um desafio inconveniente. Aos poucos, o estresse de manter um negócio desse tipo mostra suas garras e incentiva que o jogador pense em formas de expandir o negócio. Daí surge a sacada mais genial do jogo.

A sensação do jogador em querer facilitar a sua vida compele o coloca na mesma mentalidade que um empresário. Expansão é o melhor para o seu negócio, mesmo que tenha os seus custos. O que, a princípio, parece apenas uma evolução natural do jogo, a necessidade de expansão, logo expõe o lado mais cruel do capitalismo. Para alguém ter uma vantagem, sempre alguém tem que ser explorado.

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A automatização do caixa leva a demissão de uma funcionária. A expansão do mercado a destruição de pequenas lojas locais. A chatice de atualizar o estoque constantemente leva a contratação de um jovem aprendiz como forma de mão de obra barata e facilmente explorável. O que seriam simples mecânicas em um jogo comum se tornam críticas bastante didáticas em Discounty e essa é a parte mais genial do jogo.

E ver o jogo chegar tão perto de acertar só torna ainda mais doloroso quando o roteiro decide jogar tudo isso no lixo.

O que dá errado?

Mas não são apenas as antíteses do enredo que prejudicam a experiência de Discounty. A jogabilidade em si está repleta de furos. A começar pelo próprio sistema do mercado.

Infelizmente, até o lançamento do game, essa seção ainda continha uma série de bugs frustrantes. A física dos produtos na hora de ler no caixa, por exemplo, está repleta de falhas. O sistema de fila dos fregueses também é outro problema enorme. O jogo foi programado para estabelecer uma ordem fixa de atendimento. Por conta disso, quando o código decide que um cliente é o próximo, todos os demais personagens precisam esperar, independente se já terminaram as suas compras. Com isso, o jogador não consegue atendê-los a tempo e tem a sua pontuação afetada independente de sua habilidade.

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Fora do mercado, a cidade em si e seus cidadãos são mal utilizados. Sem um sistema social, não há muito motivo para interagir com outros personagens, fora das missões impostas. Explorar o mapa também é contraprodutivo, já que os poucos segredos do game são guardados atrás de momentos da história. No final, não há muito o que fazer no jogo fora das horas de expediente do personagem. Os momentos antes e depois do expediente, quando não há uma missão ativa, são completamente desperdiçados.

Essa limitação traz um problema esquisito de ritmo que o game não precisava ter. Geralmente dormir mais cedo costuma ser a melhor opção para passar um dia, já que não há nada a se fazer além de seguir em frente. Não adianta também seguir a sua curiosidade. Para descobrir mais sobre os personagens ou o mundo do jogo, a melhor estratégia é simplesmente seguir a história principal. Qualquer liberdade que o jogo finge oferecer é só uma ilusão.

No final, Discounty é um jogo cheio de potencial que desperdiça tudo com decisões esquisitas e problemas de programação que poderiam ser resolvido com mais tempo de desenvolvimento. Nada que atualizações futuras não possam resolver. Afinal, o próprio Stardew Valley evoluiu de uma maneira surpreendente ao longo dos anos. Mas, da maneira que se encontra, Discounty não passa de promessas vazias.

Discounty

Gabriel Mattos

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Visual
Roteiro
Jogabilidade

Veredito

Altamente viciante, como todo jogo de gerenciamento, Discounty pode divertir quem só quer passar o tempo sem pensar muito, mas frustra quem esperava uma tão prometida profundidade.

2.5

Cópia do game gentilmente cedida pelo estúdio para análise no PS5.

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