Com uma duração mais humilde, terceira aventura da série traz uma identidade nova
Existe um motivo para a internet estar inundada por vídeos de gatinhos. Essas criaturinhas são simplesmente adoráveis, misteriosas e com um inabalável espírito independente. Parecem estar sempre vivendo alguma aventura e, no caso de Cat Quest III, ela é pirata. O terceiro game da franquia de exploração testa uma nova direção criativa para a série que, entre erros e acertos, aponta para um futuro brilhante.
The Adventure of Cat

A proposta de Cat Quest nunca foi muito complicada. Em geral, a franquia é como uma descendente direta dos primeiros jogos de The Legend of Zelda. Cada lançamento tenta capturar a mesma alegria de descobrir o seu próprio caminho por um mundo fantasioso como os clássicos da Nintendo. Meio que uma forma de tornar acessível a simplicidade do passado para uma nova geração.
Enquanto Cat Quest III ainda mantém essa filosofia, o novo título encontra um equilíbrio melhor entre a nostalgia e a novidade. O segredo foi uma mudança drástica no tema desta aventura. Se seus antecessores apresentavam um universo de fantasia medieval mais tradicional, dessa vez tudo é recontextualizado sob a estética dos piratas.
O resultado é um mundo aberto que parece ainda mais expansivo, mesmo que o mapa na prática não seja tão grande, o mesmo truque usado anos atrás por The Wind Waker.
Assim como no título da Nintendo, o jogador está livre para explorar um pequeno oceano repleto de ilhas, com desafios mais contidos que funcionam muito bem com um ambiente portátil. Cada missão dura o tempo adequado para se encaixar entre uma viagem de ônibus ou na espera da fila de um banco, o que justifica o recente lançamento para celulares iPhone.
Cat Quest III no iOS

A jogabilidade é outro fator que parece ter sido feito desde o começo para brilhar no ecossistema mobile. A própria movimentação pela tela de toque traz uma fluidez essencial para garantir um bom desempenho nas lutas mais frenéticas contra chefes. E a quantidade limitada de ações, que se resumem a atacar e desviar, também garantem que os comandos não se percam na pequena tela do celular.
O mais desengonçado é ter acesso a suas magias, que exige que se segure o botão de ataque e deslize até o feitiço escolhido. Na prática, não é sempre que funciona como deveria, mas ainda é uma escolha melhor que sobrecarregar a tela com opções demais.
Mesmo com essas pequenas frustrações, a aventura brilha mais nos celulares que nos consoles tradicionais. Nos aparelhos potentes de última geração, capazes de renderizar mundos absurdamente realistas, Cat Quest III parece um desperdício de poder. Simples demais para máquinas tão avançadas. Porém, em um ambiente mais casual, o jogo oferece exatamente um nível adequado de complexidade para entreter sem sobrecarregar o jogador.
O que esperar do gameplay?

Tudo parece ter a escala adequada para um jogo de celular, principalmente o mundo a ser explorado. É possível cruzar o mapa inteiro em seu navio em poucos instantes, o que torna mais prático escolher a missão que deseja enfrentar a cada momento.
As masmorras dentro de cada ilha não são muito longas e nem complicadas. Apresentam desafios bem simples de lógica ou habilidade, recheadas de inimigos para preencher mais a experiência. Uma ótima opção para quem só quer passar o tempo sem precisar pensar muito.
A variedade de adversários deixa um pouco a desejar, mas o jogo compensa completamente com uma seleção caprichada de chefes. Com poderes únicos, eles desafiam o jogador a dominar cada tipo de arma e se arriscar em estilos diferentes de jogar. Essa construção incentiva sair da zona de conforto e estar aberto a experimentar novas estratégias, o que torna o game mais dinâmico.

A peça-chave que faz com que as batalhas evoluam de um simples balançar a esmo de espadas para algo mais divertido, complexo e interessante é o sistema de equipamentos. Missões opcionais e batalhas contra chefes rendem armas e equipamentos com propriedades únicas que interagem entre si de formas criativas gerando combinações inusitadas.
Lembra os sistemas de roguelikes como Rogue Legacy, em que o combo certo pode ser devastador. Um ótimo exemplo é o conjunto de armadura que causa dano ao recuperar vida que tem uma sinergia perfeita com um escudo que recupera o herói ao bloquear dano. Na mão de alguém habilidoso, o que era para ser uma forma passiva de defesa se torna uma estratégica ferramenta de contra-ataque. E o game está repleto de combinações como essa, esperando apenas mentes criativas para se revelar.
Porém, encontrar as ferramentas certas leva tempo. Até conseguir explorar mais o mapa, o jogador fica preso a poucas opções de ataque, o que resulta em um começo bem lento e estranhamente difícil. Por depender muito de melhorias de atributos e armas especiais para se balancear, que só surgem em um momento mais avançado da aventura, a curva de dificuldade de Cat Quest III é ridícula.

No começo, até mesmo os inimigos mais simples podem ser letais. Só que com o tempo, até os chefes mais intimidadores são fáceis de lidar.
A única coisa que motiva a continuar nesse primeiro momento é o roteiro. Apesar de não ser nada profundo, Cat Quest III sabe construir muito bem o seu mistério e desperta uma vontade incontrolável de desvendar a fundo seus segredos. Uma qualidade que é replicada, em menor escala, também em suas missões secundárias, que costumam trazer reviravoltas interessantes e personagens carismáticos.
Mesmo com um ritmo esquisitíssimo, Cat Quest III é uma ótima pedida para quem procura uma experiência clássica de aventura na palma das mãos. A versão mobile, do iOS, traz todo o conteúdo extra da versão original em uma roupagem mais prática, que torna essa a melhor maneira de se jogar. A única perda é no modo cooperativo, que exige o uso de um controle para ser acessado. Mas de resto, essa é a versão definitiva do jogo.




