Apopia, novo game de aventura, sofre com um conflito de identidade que sufoca seu potencial
Agridoce, chiaroscuro, yin-yang. Na proporção certa, a colisão entre experiências opostas pode criar um produto completamente novo e ainda melhor. Alguns jogos, como o novo Resident Evil Requiem, fazem isso muito bem. O novo título da Capcom complementa o terror de Grace com a ação de Leon, o que rende um ritmo incrível. Em outros casos, como Apopia: Um Conto Disfarçado, o resultado pode ser um pouco mais desengonçado.
Ficha Técnica

Título: Apopia: Um Conto Disfarçado
Plataformas: PC
Data de Lançamento: 3 de março
Gênero: Aventura
Desenvolvedora: Quillo Entertainment
Distribuidora: Happinet
Descrição: Um jogo de aventura por um mundo fantástico que esconde segredos sombrios.
O que esperar de Apopia?

A proposta do título está exatamente nesse contraponto. Apopia se apresenta como uma história com ares infantis que esconde um lado sombrio, que não demora a aparecer. A trama acompanha a entusiasmada jovem Mai, que se separa de sua mãe em circunstâncias no mínimo suspeita e acaba parando em um reino fantástico de animais falantes.
Os paralelos com Alice no País das Maravilhas não são sutis. Logo no começo as comparações são inevitáveis, com a queda em um outro universo e a abundância de coelhos na região. Só que, diferente do conto clássico que concilia bem o lúdico com o perturbador, a obra de estreia do estúdio Quillo Entertainment sofre para encontrar um tom coerente.
Como um jogo para crianças, Apopia se sai muito bem. Os diálogos são engraçados e bobos de uma forma pura que lembra bastante os desenhos da nostálgica Discovery Kids. O visual cartunesco, super vívido, dialoga bem com isso de uma forma fantástica. Alguns fundos são tão bem executados que me lembraram grandes animações, como Steven Universo. Porém, quando há a virada para a perspectiva mais sombria da trama, a situação sai um pouco de controle.

A sensação é de uma obra infantil tentando se vender como mais madura do que é para convencer um público adolescente cético demais para essas tolices. A arte até injeta uma estética gótica, com paletas invertidas e uma abundância de preto, mas não abandona os coloridos rabiscos artesanais. O roteiro tenta flertar com um suspense fantástico psicológico, sempre contido para não extrapolar a atmosfera macabra. O resultado é uma obra esquisita demais para uma criança média, mas não sobrenatural o suficiente para o público adulto.
Pena que a apresentação conflituosa rouba a cena do que o game sabe fazer de melhor: a sua jogabilidade. Como todo bom jogo de aventura, o principal objetivo é explorar o mapa e conversar com o elenco para acumular ferramentas para resolver enigmas. As soluções não são lá mirabolantes, mas a execução sempre demonstra uma criatividade que abre um sorriso no rosto. Uma grata surpresa são os esparsos minigames, muito bem executado, como as sessões rítmicas que dão o tom das batalhas espirituais entre personagens.

O mesmo cuidado poderia ter sido melhor aplicado na parte técnica. Na versão prévia, para testes, o jogo sofria com problemas de screen tearing e o desaparecimento das cores dos protagonistas, o que indicava algum erro de programação que passou batido. Ao testar a versão final, a performance já está bem mais estável, mas ainda acontece dos personagens ficarem brancos (possivelmente carregando as paletas das caixas de diálogo) após cada tela de carregamento. Não impede o progresso na aventura, mas quebra completamente a imersão.
Apopia: Um Conto Disfarçado

Veredito
Com um foco melhor direcionado, Apopia poderia ser o irmão mais novo de Night in the Woods. Ao invés disso, se contenta em ser um primo distante emo de algum desenho cancelado do Cartoon Network. Ainda tem muito a oferecer para fãs do gênero, mas esperaria um tempo até que novas atualizações estabilizem a performance.




