Ícone do site

Fire Emblem: Fortune’s Weave tem um mundo inspirado na África? Entenda as referências

Fire Emblem Fortune's Weave Cai

Novo RPG da Nintendo apresenta personagens negros, fauna, paisagens e elementos religiosos que remetem a diferentes regiões do continente africano

Fire Emblem Fortune's Weave Cai

Desde o seu anúncio oficial, durante uma Nintendo Direct, Fire Emblem: Fortune’s Weave vem chamando atenção por conta de um detalhe inesperado. O novo jogo da tradicional franquia de fantasia medieval apresentava um elenco majoritariamente negro. Com o recente lançamento para Nintendo Switch 2, os jogadores se surpreenderam mais uma vez. Não se trata apenas de uma representatividade vazia. O mundo do jogo em si é inspirado na África.

A savana de Fire Emblem

Ribeira traz os mesmos tipos de árvore e vegetação rasteira

As influências africanas nunca são explicadas de forma explícita pelo jogo, mas são abundantes em especial na rota do Cai. Ele é um dos cinco protagonistas da aventura e sua história começa no remoto vilarejo de Ribeira, uma locação repleta de elementos da África.

Em questões geográficas, as inspirações são um tanto genéricas, mas não carregam muitos dos estereótipos negativos frequentes em produções estrangeiras. Não é tão raso quanto a inclusão de leões e tigres, mas reúne elementos comuns entre países de diferentes partes do continente, como as savanas.

A savana é um bioma compartilhado entre mais da metade do continente africano. Seja em países mais ao sul, como Botsuana, Namíbia, Zimbábue, África do Sul e mais de 46% deste território, segundo o Instituto Nacional de Biodiversidade da África do Sul. Seja em países mais ao centro, incluíndo Estados da África Oriental, tipo a Nigéria, e da África Ocidental, tal qual o Quênia.

Fire Emblem Fortune's Weave Ribeira

Apesar de apresentarem particularidades, a depender da região em questão, o que define as savanas são os campos abertos de baixa umidade, predominância de gramas e arbustos, além de uma vegetação adaptada aos incêndios frequentes ao longo do ano. Características estas presentes em toda a área que se estende entre Ribeira e a capital de Dagba, Dagsion, o cenário dos primeiros capítulos da rota de Cai.

A fauna africana de Ribeira

A história deste personagem é a que mais apresenta conexões com a África. Especialmente ao se considerar a habilidade especial, exclusiva de Cai, de domar os animais para usá-los em combate. Ao invés de cavalos e dragões, típicos de fantasias medievais com base europeia, como os demais títulos da saga, Fire Emblem: Fortune’s Weave traz destaque para avestruzes e elefantes, fauna típica do continente africano.

Talvez esta seja a maior pista para descobrir de quais partes da África vêm as maiores inspirações para o fictício continente de Dagda. Afinal, o habitat destas criaturas é bem mais restrito do que a extensão de toda a savana. 

Fire Emblem Fortunes Weave Cai Avestruz

Por se tratar de uma história de fantasia medieval africana, nada impede que os desenvolvedores tenham se baseado em espécies extintas. Contudo, caso tenham seguido com as espécies ainda existentes, só teriam duas candidatas para escolher, segundo o Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal: o avestruz comum, nativo dos já citados países ao sul da África, e o avestruz-da-somália, da região do Chifre da África.

Porém, a presença dos elefantes africanos ajuda a limitar ainda mais a região que inspira o game. Das duas espécies distintas que recebem este nome, apenas uma habita as savanas, o elefante-da-savana. Este animal é nativo especialmente dos países mais ao sul, como os já citados Botsuana, Zimbábue, África do Sul, Quênia, Tanzânia, Namíbia e Zâmbia, de acordo com a Fundação da Vida Selvagem Africana.

Com isso, podemos concluir com segurança que a região de Ribeira a Dagsion é inspirada na África Subsaariana.

A religião de Fire Emblem: Fortune’s Weave

Fire Emblem Fortune's Weave Religião Religion Gods Deuses

Essa hipótese ainda é reforçada por duas mudanças que Fortune’s Weave traz em comparação a Three Houses, que se passa no continente vizinho de Fódlan. A primeira é a ampla variedade racial, expressa em diferentes tons de negritude, e a segunda é a presença de múltiplas religiões e divindades em contraste com a crença única na Igreja de Seiros, uma analogia ao catolicismo.

De acordo com o Doutor Jacob Olupona, que estuda religiões nativas africanas na Harvard, a configuração religiosa atual do continente africano é muito recente. No momento, cerca de 40% da população segue o islamismo, enquanto outros 40% segue o catolicismo, especialmente nas regiões ao sul. 

Contudo, esse aumento expressivo pode ser percebido a partir do século XX. O número de seguidores assumidos de religiões nativas africanas é 65 vezes menor do nos dias de hoje do que em meados de 1900. Considerando que Fortune’s Weave se passa em uma era fictícia medieval, a presença de religiões politeístas nesse continente pseudoafricano seria bem maior, como pode ser vista no continente de Dagba.

Fire Emblem Fortune's Weave Religião Religion Kalla

A configuração das divindades do jogo é semelhante ao que é visto na cultura iorubá, que deu origem ao candomblé e a umbanda brasileira. Como o Doutor Olupona explica, esta é uma cultura que apresenta características de religiões monoteístas, com Olorum como Deus Criador, mas também do politeísmo, pois esse ser supremo deu origem aos orixás, que regem outros aspectos da vida. O mesmo acontece na história de Fire Emblem: Fortune’s Weave.

A deusa primordial é Sothis, a mesma que apareceu em Fire Emblem: Three Houses. Ela, no entanto, teve muitos filhos, que são cultuados em diferentes regiões do continente de Dagda. Na rota de Leda, conhecemos a deusa Kalla, que rege a caça. Cai nos apresenta a deusa Aurora, que rege a navegação. E todas as rotas trazem destaque para o regente de Dagda, Solel, o deus do sol que comanda os Jogos Heróicos.

Mais interessante é a importância que a trama traz para a ancestralidade. Cada protagonista tem acesso a uma Blaze Arts, um poder corrompido que só pode ser ativado graças à uma herança divina. Um ponto de contato com a própria ancestralidade, algo muito encorajado em muitas religiões nativas africanas, como o próprio Doutor Olupona revela.

Fire Emblem: Fortune’s Weave também traz outras referências. A capital Dagsion é contruída com alusões claras aos grandes centros urbanos da Grécia Antiga. O costume de batalhas e guerras de biga no coliseu vem do Império Romano. E a presença de Dietrich, o único protagonista branco, mantém os laços com a europa medieval. Mas, em meio a inspirações a tantas sociedades importantes do passado, é revigorante ver que as contribuições africanas não foram esquecidas pelo menos desta vez.

Sair da versão mobile