Em coletiva repleta de elogios a Grazi Massafera, elenco defendeu a pluralidade da releitura moderna de Dona Beja
Dona Beja estreou na HBO Max no início de fevereiro. A releitura da novela da Manchete de 1986 traz Grazi Massafera, a Dona Cobra de Três Graças, no papel principal, e um elenco surpreendentemente negro. Com isso, a trama de época desafia estereótipos raciais, inovação que virou assunto da coletiva de imprensa, com depoimentos poderosos de atrizes talentosas como Erika Januza (Amor de Mãe) e Thalma de Freitas (O Clone).
A dualidade do amor preto em Dona Beja

A trama acompanha Beja, personagem de Massafera, que é apaixonada por Antônio, vivido por David Júnior (Liberdade, Liberdade). Depois de um acontecimento traumático, Beja se vê como a figura central de um cabaré. Essa mudança abala o seu triângulo amoroso com dois interesses românticos negros que precisam enfrentar preconceitos para viver esse amor.
A inovação de trazer dois personagens negros, Antônio Sampaio e João Carneiro, para o centro desse romance de época reverbera em toda a trama. Essa mudança constrói núcleos familiares fortemente negros que permite que a história explore temas raciais com naturalidade, de forma complexa e muitas vezes contraditória. Uma abordagem sincera rara em novelas nacionais, como explica André Luiz Miranda (Nosso Lar), o João Carneiro.
“É um projeto incrível de colocar tanta gente preta em lugares em que a gente não é enxergado,” reflete André Luiz Miranda. “As pessoas pretas sempre foram colocadas no mesmo lugar, com os mesmos pensamentos… E essa novela diz totalmente diferente. [Diz] Que nós somos múltiplos. Nós somos diversos. Nós pensamos diferentes. Temos colocações diferentes. E essa parceria [entre os personagens pretos] diz muito isso.“
David Júnior, que divide o amor de Beja na novela, complementou a fala de seu colega de elenco reforçando como o roteiro consegue também trabalhar bastante a questão de ancestralidade, especialmente na sua versão do Antônio.
“Ele é um cara que, assim como o personagem de Dédé (André Luiz), ele tem um objetivo traçado desde a infância. Ele precisa cumprir o legado que a avó dele deixou. Só que no meio do caminho existe o amor, existe a paixão, existe o sentimento que ele nutre pela Beja e que é interrompido por conta de tudo que acontece,” explica David. “Ele vive essa dicotomia de cumprir o legado ou cumprir o que ele sente. ”
Verdades raciais com complexidade

Outra veterana das telinhas, Deborah Evelyn (A Dona do Pedaço), reforça essa complexidade da narrativa ao contar sobre a sua personagem, Ceci, que tem seus preconceitos atravessados pelas contradições do amor.
“Ela é racista, mas ela é casada com um negro. Ela tem dois filhos negros LINDOS, mas ela é racista. Olha que personagem incrível,” reflete a atriz.
Ela foi uma das atrizes, inclusive, que rasgou elogios à conduta profissional de Grazi Massafera, assim como a Thalma de Freitas, que vive Josefa. Seu último papel na TV foi como uma empregada sem nome na série Histórias (im)Prováveis, da Rede Globo. Em Dona Beja, ela assume o papel da matriarca da família Mendonça, mãe de João Carneiro.
“É um prazer enorme voltar a televisão brasileira vestindo uma mulher culta. Uma artista. Uma intelectual. Uma mulher amada. Uma mulher com uma família sólida,” diz ao descrever qualidades que quebram o estereótipo de personagens negras na TV brasileira. “Uma mulher que representa todas as mulheres do mundo em todas as épocas do mundo nesse contexto em que parece que mulheres como nós não existimos. mas nos existimos. Nós sempre existimos. E a Josefa Mendonça é a representação máxima disso.”
Grazi, que fez questão de agradecer o carinho de Thalma, concluiu que a novela não tem medo de trabalhar esses assuntos sociais importantes, mesmo que gere uma resistência de uma parcela menos graciosa do público.
“Tem muita coisa pra gente refletir,” explica Grazi. “Os mais conservadores vão falar coisas absurdas. Vão dizer que é lacração. Vão virar o siri na lata e isso é bom também. Dane-se! A gente também quer isso. Então vai ter de tudo, porque a gente enfia o dedo na ferida da sociedade. A gente vai mexer [nisso]!”
No momento, dez episódios de Dona Beja já estão disponíveis. A novela está prevista para totalizar 45 episódios, lançados semanalmente na plataforma de streaming.
Cinco novos episódios de Dona Beja estreiam na HBO Max toda segunda.




