Novo filme do herói empolga pelo futuro da DC Studios, mas deixa o seu próprio protagonista de lado
Superman, como tudo na arte, é um produto do seu tempo. No auge da Segunda Guerra Mundial, o herói era um símbolo do nacionalismo, que unia a nação contra um inimigo em comum. “Verdade, justiça e o modo americano” era o seu lema, adequado para uma nação em guerra. Porém, os tempos mudaram e o herói precisou se adaptar. Moralidade ainda faz parte da sua bandeira, mas a propaganda por um país que divide cada vez mais as pessoas ficou no passado. O novo Superman defende a “verdade, justiça e um amanhã melhor”, uma mudança que o diretor James Gunn tenta refletir em seu filme.
Ficha Técnica

Título: Superman
Estúdio: Warner Bros Discovery
Estreia: 10 de julho
Duração: 2h 09min
Gênero: Ação, Super-herói
Diretor e Roteirista: James Gunn
Elenco: David Cornswet, Rachel Brosnahan, Nicholas Holt, Nathan Fillion, Isabela Merced e mais.
Sinopse: Quando uma verdade oculta põe em cheque a reputação do Superman, o herói precisa redescobrir quem é para salvar o mundo.
O que Superman diz sobre a DC Studios?
Como projeto piloto do novo Universo DC, Superman estabelece essa nova fase dos super-heróis como uma história mais contemporânea. Esses personagens saem do campo abstrato e filosófico proposto por Zack Snyder, com filmes mais interessados em explorar essas figuras como símbolos, para mergulhar de cabeça em alegorias políticas e sociais, que alçaram a Marvel Studios ao estrelato. Tudo isso sem abandonar a essência leve e divertida dos quadrinhos, marca registrada do James Gunn.
O que esperar do novo Superman?

Mesmo quando toca em assuntos mais sérios, a maior preocupação do filme nunca é colocar ninguém para pensar. O roteiro é recheado de humor e ação para entreter quem só está procurando mais uma aventura de super-herói inconsequente para distrair a mente. Contudo, nesse ponto, Superman não se sobressai tanto quanto outros filmes de herói do diretor.
A comédia nunca chega aos níveis caóticos de Guardiões da Galáxia ou O Esquadrão Suicida. Para não destoar da estética certinha que se espera do herói, o roteiro opta por trazer um humor mais contido, reservado às bagunças do cãozinho Krypto e a personagens pequenos e irreverentes, como a namorada do Lex Luthor, a influenciador Eve Teschmacher. Contudo, essa energia moleque, tão presente em outras produções de Gunn, não faz parte da essência de Superman, o que deixa o filme com uma leve crise de identidade.
A ação, apesar de muito bem filmada, também não alcança todo o seu potencial. Com um currículo recheado de longas de heróis, Gunn sabe como ninguém dirigir lutas repletas de efeitos especiais como um grande espetáculo visual. A câmera está sempre em movimento, seguindo a perspectiva mais interessante da ação, o que rende algumas sequências memoráveis. Em especial as protagonizadas pelo Senhor Incrível e, novamente, pelo cãozinho Krypto. Pena que o diretor não consiga demonstrar a mesma criatividade com quem mais importa, o protagonista.
Por que Superman não decola?

Este não é um filme sobre o triunfo do Superman: é um filme sobre suas derrotas. Sobre quem este homem superpoderoso revela ser quando está em seu momento de maior fragilidade. Em uma tentativa de humanizar um dos personagem mais poderosos da ficção, Gunn rouba a estrela do filme de participar dos momentos mais interessantes da sua própria história.
O problema é que o diretor também não parece muito interessado em explorar de verdade as emoções do personagem. Enquanto Zack Snyder enxerga o herói como um espelho de questionamentos filosóficos, Gunn o vê como um prisma que reflete a consciência coletiva dos cidadãos dos Estados Unidos. Se no passado esse reflexo mostrava o otimismo desta nação, no presente, a imagem é de um povo fragmentado.
A jornada do herói ao longo da trama foi construída para ilustrar quão perdido o povo americano se sente, sem conseguir reconhecer a imagem que lhes foi vendida sobre o seu país ao longo de muitos anos. Superman é obrigado a confrontar uma verdade terrível sobre a sua origem que simboliza bem os tons fascistas que o país vem demonstrando mais abertamente nos últimos anos e a maior parte do filme o herói passa impotente, refletindo sobre como agir.

Como metáfora, não deixa de ser interessante. Mas o tom contemplativo de impotência que rege boa parte da história não é exatamente cativante. Em boa parte da trama, Superman acaba ficando de escanteio, sofrendo com uma grave crise de identidade, enquanto outros personagens secundários tem a chance de brilhar.
Até rende uma cena visualmente interessante, em que o herói discute a relação com Lois Lane enquanto uma luta empolgante acontece ao fundo. Só que essa sequência só acaba reforçando este sentimento de que o melhor do filme está acontecendo como plano de fundo, enquanto somos obrigados a assistir uma extensa melancolia que caberia melhor em uma série de TV.

Com um Superman mais contido, quem brilha são os personagens secundários. Quase todos tem uma história mais interessante que o próprio herói para contar.
A Lois Lane de Rachel Brosnahan apresenta um ar de suspense com sua trama de jornalismo investigativo, uma pegada mais “pé no chão” que equilibra o enredo fantasioso. Ela ainda explora um romance incerto com Clark Kent que estabelece um conflito emocional um tanto necessário para tornar a história mais envolvente. Lex Luthor, vivido por Nicholas Holt, é outra peça-chave.
Pode não ter o mesmo carisma que a versão de Jesse Eisenberg, mas a sua caricatura nada sutil dos interesses de Elon Musk na geopolítica global adicionam um ar crítico que salva a história de ser fútil. A atuação pode não ser das melhores, mas a forma com que o personagem foi escrito é um tanto interessante. Suas motivações funcionam muito melhor que outras versões do vilão, em especial a vivida por Kevin Spacey em Superman Returns. Lucro não é o que move seus planos mirabolantes. O combustível de Lex Luthor é o seu ódio ao diferente, seu sentimento de superioridade, suas crenças supremacistas.

Tanto esforço em construir tramas interessantes para o elenco de apoio não deixa de ser peculiar. É como colocar um tempero muito forte em um prato principal sem muito sabor. Até disfarça a falta de sal, mas não faz milagres. Não conserta uma comida pouco interessante. A sensação é de que talvez James Gunn estivesse mais interessado em contar outra história de equipe, como foi O Esquadrão Suicida e Guardiões da Galáxia, mas se viu obrigado a liderar um filme de origem para estabelecer o tom de seu novo universo compartilhado.
O novo filme do Superman acerta em tudo o que precisava ser. Não alcança toda a excelência que se espera de um filme do James Gunn, mas extrapola tudo que foi feito com o herói no cinema neste século. Esta é a melhor representação possível do Superman desta geração — um norte para o que está por vir no futuro da DC Studios. Prepare-se para uma era de filmes confortáveis, divertidos, sem tanta ousadia, mas pronta para incomodar o império em declínio da Marvel Studios.
Superman

Veredito
Superman é um ótimo pontapé inicial para o Universo DC, mas quando a melhor palavra que descreve seu filme é “promissor”, é um sinal forte de que poderia ter sido muito melhor.
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