Narciso foge de uma discussão racial acalorada em prol de uma história acolhedora
Para algumas pessoas, olhar no espelho é um perigo surreal. Enquanto uns enxergam um mero reflexo de quem são, outros são obrigados a encarar uma imagem muito mais turva. Uma versão distorcida pelo olhar alheio, moldada pela visão que a sociedade tem de você. Quando não se reconhece a pessoa que lhe encara de volta ao olhar no espelho, o que resta fazer? No caso do menino Narciso, protagonista do novo filme nacional homônimo de Jeferson De, a saída está no sonhar.
Ficha Técnica

Título: Narciso
Estúdio: Elo Studios
Estreia: 19 de março
Duração: 1h 29min
Gênero: Drama
Diretor: Jeferson De
Roteirista: Jeferson De e Cristiane Arenas
Elenco: Arthur Ferreira, Seu Jorge, Ju Colombo, Bukassa Kabengele, Juliana Alves e mais
Sinopse: Narciso, um jovem órfão, pede para um gênio por uma família rica e branca, mas para conseguir o seu pedido ele nunca mais pode ver o próprio reflexo.
O que esperar de Narciso?
Disponível nos cinemas de todo o Brasil, Narciso propõe essa viagem interna que quem já se viu rejeitado pela sociedade apenas por existir vai reconhecer muito bem. O filme não está preocupado em contar uma história grandiosa repleta de reviravoltas. A trama, em si, é bem direta e previsível. É menos sobre os acontecimentos e mais um ensaio sobre como sentimentos. É sobre digerir emoções complicadas através da arte, algo que fica muito evidente nos diversos momentos que convidam à introspecção.
Muitas cenas são marcadas pelo silêncio, em especial do próprio Narciso. Mesmo nos momentos mais caóticos de discussão de família, não é incomum que o menino permaneça calado. As barreiras emocionais que levam o jovem a se fechar também nos provocam a questionar sobre as suas emoções e, sem perceber, se projetar na mesma viagem interna que o rapaz.
Outras cenas trazem essa proposta de forma mais explícita, com composições visuais impactantes envoltas em um silêncio que propõe uma reflexão sobre a simbologia por trás das cenas. Nestes momentos, a beleza extraordinária é mais uma ferramenta que trabalha a favor dos temas do filme. Olhar reflexos em lagos, céus azuis e outros quadros que transmitem muito bem uma quietude visual oferece um respiro nos diálogos emocionalmente carregados. Uma chance para o público digerir as perguntas do roteiro e encontrar as suas próprias respostas.
Mesmo no silêncio, Narciso tem muito a dizer.

Talvez não tenha sequência que melhor exemplifique essa ideia do que o momento em que o menino mergulha no devaneio de como seria sua vida se sua origem fosse diferente. Com um elegante filtro preto e branco, que evoca o “Corra!” de Jordan Peele, outro clássico surreal do cinema preto, Narciso se depara com um mundo desconexo. Um universo imaginado tão perfeito que desperta um desconforto de que algo oculto deve estar errado.
Nesse momento, os diálogos são mais simples e espaçados. O filme cria propositalmente lacunas para que os espectadores preencham com suas conclusões. E, como interlúdio, as imagens tranquilas retornam, desta vez alimentando o sentimento de desconfiança desse trecho, outro acerto de uma direção bem precisa e intencional.
Talvez Narciso peque em não propor uma discussão mais direta e edificante sobre os problemas sociais que atravessam as pessoas pretas. Afinal, havia espaço em trazer novas vozes para essa discussão. Só que este não é um filme que quer ser barulho. Narciso é um filme que quer ser espelho. Em um mundo em que a felicidade do branco é plena, Narciso é um lembrete que a felicidade do preto não precisa ser quase.
Narciso

Veredito
Narciso é um processo de cura em forma de filme.
Narciso está em cartaz em cinemas selecionados de todo o país.
