Nova leva de episódios prepara o terreno para arco mais empolgante do mangá sem grandes perdas
Por muito tempo a Netflix navegou perdida pelas traiçoeiras águas das séries de fantasia em busca de um rei. Algo digno de bater de frente com os grandes nomes de seus principais rivais, como Game of Thrones e o Universo Marvel. Com a estreia da segunda temporada, não resta mais dúvidas. A busca chegou ao fim. One Piece: A Série é de fato o maior tesouro do catálogo da Netflix.
A adaptação live-action da grande obra de Eiichiro Oda consegue o que ninguém esperava. Nem o número limitado de episódios a impediu de traduzir com louvor um dos clássicos mais bobos e sofisticados do anime em uma nova experiência à altura, do jeito que deveria ser. Com uma linguagem mais realista, mas sem perder a sua essência. De uma genialidade digna do legado de One Piece.
Ficha Técnica

Título: One Piece: A Série – Segunda Temporada
Estúdio: Netflix
Estreia: 10 de fevereiro
Duração: 8 episódios de aprox. 1 hora
Gênero: Aventura, comédia, fantasia
Showrunners: Matt Owens e Steven Maeda
Elenco: Iñaky Godoy, Mackenyu, Charithra Chandran, David Dastmalchian e mais
Sinopse: Após reunir uma tripulação, Monkey D. Luffy parte para a Grand Line para continuar a sua busca pelo tesouro perdido do One Piece, agora no Novo Mundo.
O que esperar da segunda temporada de One Piece: A Série?

O sucesso da primeira temporada trouxe ainda mais confiança ao segundo ano, que aposta em um roteiro ainda mais fiel ao material de origem, efeitos especiais mais insanos e um elenco com carisma de sobra. Uma consequência direta da mudança no ritmo de adaptação, que cobre, em comparação, cerca de metade da quantidade de capítulos do mangá nesta nova fase.
Com menos história para contar no mesmo período de tempo, a série consegue se dedicar ainda mais a cada pequeno arco, sem a necessidade de grandes mudanças na trama. Seja na vibrante ilha de Loguetown ou nas frias terras do Reino de Drum, os eventos vividos pela tripulação do Chapéu de Palha acontecem de forma muito parecida ao mangá, com pequenos ajustes, em geral, muito bem-vindos para acrescentar novas pistas sobre o futuro ou otimizar o custo da produção.

Não há nenhuma ausência muito dramática desta vez, como foi o sumiço de Hatchan no Parque do Arlong. A maior vítima dessa vez é o pato Karu, que apesar de ser um grande favorito meu, não faz muita falta na história. O problema acaba surgindo em algumas alterações menores no roteiro, feitas de forma muito mais inconsequente e que acabam tendo um impacto muito maior.
Um exemplo claro é a presença de Mister 3 nos episódios de Little Garden. A série tenta propor novas explicações para seu plano mirabolante que não convencem muito e tornam o personagem menos emblemático que no original, apesar do bom trabalho de David Dastmalchian na atuação. Todos os demais integrantes da Baroque Works apresentados até então, por outro lado, estão perfeitamente caracterizados.

A série soube captar muito bem a extravagância de personalidades como o melequento do Mr. 5, a metida Miss Valentine, o pomposo Mr. 8 e até aqueles que não tem destaque algum na obra original, como Mr. 11. A direção sabe extrair o melhor do elenco que sabe dosar muito bem o lado cômico e ameaçador de cada um dos vilões. Claro que o destaque fica para a complexa Miss Wednesday, interpretada brilhantemente pela Charithra Chandran, de Bridgerton.
Assim como a versão original da personagem, ela não é muito boa em ser má e brilha ao demonstrar sua fragilidade. Ela é a personagem que mais evolui das novas adições do elenco, o que foi feito de uma forma bastante convincente por Charithra. Em algumas cenas mais intensas, nos últimos episódios, a atriz consegue trazer uma presença tão intensa à personagem que só aumenta as expectativas pelo seu retorno na terceira temporada.

Entre o elenco principal, o destaque fica para o Usopp, que rouba a cena em Little Garden, e no estreante Chopper, que conquista instantaneamente desde a sua primeira aparição. Todos os demais têm o seu momento de brilhar nos episódios iniciais, com exceção de Sanji. Ele é o personagem menos relevante na temporada, mas o que tem uma correção mais significativa em sua caracterização. Nos novos episódios, o cozinheiro está cada vez mais mulherengo sem que isso o torne machista: um risco que os roteiristas não quiseram correr no primeiro ano.
Mesmo sem tanto tempo de tela, Sanji ainda conseguiu protagonizar um dos momentos mais emotivos de “Rumo à Grand Line”, antecipado de um arco muito avançado. Se a primeira temporada foi marcada pela aventura, a segunda leva de episódios têm uma forte presença de momentos emocionantes. Confesso que cheguei a chorar com duas histórias que, ironicamente, envolviam dois personagens completamente feitos por efeitos especiais: a baleia Laboon e o pequeno Chopper.

Tirando a esquisita cera do Mr. 3 em Little Garden, os efeitos especiais da temporada parecem ainda mais caprichados que antigamente, que já eram muito bons. Mais que os golpes especiais, que esbanjam a esquisitice dos poderes criados por Oda, isso se materializa muito bem nos personagens fantasiosos da trama. Eles são tão bem feitos que é impossível não se emocionar quando os vemos chorando. A história em si é bem emotiva, mas a tristeza palpável desses personagens que nem existem é o que faz as cenas funcionarem tão bem.
Chopper parece o irmão perdido do Pikachu de Pokémon: Detetive Pikachu. Parece uma pelúcia felpuda que fala, da melhor forma possível. O pequeno protagoniza três episódios e é impossível não se apaixonar pelo seu jeito inocente de ser. Seu arco, do Reino de Drum, é o que sofre mais mudanças em comparação com o original. O que é uma pena, mas não o tornou menos efetivo. O mais importante foi mantido: um episódio quase que inteiro ao passado de Chopper capaz de destruir o coração de qualquer um.

Como vão manter o nosso pequeno viadinho nas temporadas seguintes sem extrapolar o orçamento de efeitos especiais é um mistério. O fato é que os novos episódios aumentam muito a expectativa pelo que está por vir. A sequência da história consegue capturar a essência de One Piece de uma forma ainda mais empolgante, se é que isso é possível. A trama sabe valorizar tanto os momentos de ação e de humor quanto os mais sensíveis, o que muitas adaptações tem medo de abraçar. Com isso, One Piece: A Série demonstra ter tanto coração quanto o nosso querido Luffy. Fica o desejo que a série consiga se esticar por muitos anos, assim como ele.
One Piece: A Série – Rumo à Grand Line

Veredito
A melhor forma de acompanhar a história de One Piece para quem não está acostumado com o ritmo exigente dos animes.




