Nova versão live-action de Moana é cheia de acertos, só falta uma forte identidade própria
Quando o horizonte te pede pra ir tão longe, é melhor ir de verdade e não apenas fingir. Foi o que faltou na produção da versão live-action de Moana, nova aposta da Disney para encher as salas de cinema nessas férias de verão.
O filme segue sendo encantador, assim como a animação de 2016. Até os elementos mais lúdicos e musicais, que poderiam afundar o longa se mal adaptados, foram muito bem executados. Não é a técnica que falta ao novo Moana. É identidade.
Ficha Técnica

Título: Moana
Estúdio: Disney
Estreia: 9 de julho
Duração: 1h 56min
Gênero: Comédia, Musical
Diretor: Thomas Kail
Roteirista: Jared Bush e Dana Ledoux Miller
Elenco: Dwayne Jhonson (The Rock), Catherine Laga’aia e mais
Sinopse: Moana é a filha do chefe da vila de uma ilha que precisa partir em uma viagem pelos oceanos para recrutar o semideus Maui e forçá-lo a devolver o coração roubado de uma antiga deusa.
O que esperar do novo Moana?

A história é um coming-of-age tradicional, que acompanha a transformação de Moana em uma adulta. Ao menos funcionalmente. Ela começa como uma garota que vive sob as expectativas dos pais e precisa se tornar alguém que assume a responsabilidade de suas próprias decisões. Uma líder para o seu povo. Contrariando a todos, Moana sai de sua ilha quando uma praga assola sua terra e busca a solução no oceano desconhecido.
O roteiro continua charmoso e atual mesmo depois de uma década. Pouco foi mudado no texto e Moana segue sendo a personagem assertiva, atrapalhada e inspiradora que sempre foi. A atuação de Catherine Laga’aia cai como uma luva. É como ver a heroína da animação ganhando vida em carne e osso, em todos os seus trejeitos e maneirismos.
O mesmo pode ser dito do Maui de Dwayne Johnson, que também deu a voz ao personagem na obra original. The Rock é como a encarnação do semideus atrapalhado, só que para este papel isso não é o suficiente. Diferente de Moana, Maui inevitavelmente perde um pouco do charme com a transição para o live-action graças a sua malandragem cartunesca que perde um pouco da naturalidade com a barreira do realismo.

A interação com a sua miniatura em tatuagem, por exemplo, é bastante diminuída e as transformações em animais perdem um pouco de humor quando os bichos parecem animais reais. É engraçado quando um desenho fica preso em uma forma híbrida de humano e tubarão. Um ator nesse lugar esquisito beira o desconfortável.
A produção parece ciente do perigo de cair nesse vale da estranheza. O galo Hei Hei, por exemplo, se sai muito bem ao abraçar a estilização. Ele tá longe de parecer um galo real e adota as proporções da animação, como as adaptações de Pokémon e Sonic. Com isso, ele continua tão engraçado quanto sempre. O Tamatoa, por outro lado, perde muito das suas expressões e do seu charme ao se contentar com um visual híbrido, mais opaco e realista que não combina com um personagem deveras extravagante.
Seu número musical, inclusive, é o que menos funciona. Os demais, contudo, são surpreendentemente envolventes. “Seu Lugar”/ “Where You Are”, que abre o longa, ganha mais camadas ao incorporar ainda mais tradições e toques culturais do povo polinésio, que o produtor Dwayne Johnson faz parte. A coreografia enche os olhos com um mar de pessoas nativas dançando com orgulho, coisa que a animação não conseguiu traduzir com a mesma emoção. A coroa que Moana usa nesta cena, inclusive, traz um impacto especial.

“De Nada” / “You’re Welcome”, a emblemática canção do Maui, é outro ponto alto da adaptação. Talvez o número mais difícil de adaptar, a produção consegue dobrar a aposta de uma sequência que já era muito fantasiosa e colorida na animação. De alguma forma, a cena consegue ficar ainda mais mágica, de um jeito próprio, na versão com atores, ao brincar com um jogo de luzes, o físico escultural de Dwayne Johnson e muitos efeitos especiais.
A Disney não economizou em tornar Moana uma experiência digna da grandiosidade da animação. Um ponto que muitas adaptações do tipo pecam é o tratamento de cores e uma tentativa fútil de se distanciar dos elementos mais absurdos e fantásticos do material de base. A nova versão de Moana nunca nem hesita em abraçar o legado de sua animação, mesmo nos momentos mais caricatos. Pode pecar na execução, mas jamais na intenção.
O novo Moana está entre as melhores adaptações para live-action da Disney. Faz um trabalho excelente em trazer tudo que foi imaginado para a animação ao mundo real. Tem até um toque a mais de autenticidade no lado cultural, graças ao olhar sensível de Dwayne Johnson como produtor. Só faltou um quesito novidade que justifique assistir a esta versão no lugar da animação. Poderia velejar a novos mares, mas preferiu a segurança da familiaridade do raso. Um fim irônico para uma heroína tão corajosa.
Moana

Veredito
Moana é uma ótima adaptação “3 estrelas” de uma excelente animação “5 estrelas”.