Review – Orbitals é o que seria um Evangelion feito pelo Studio Ghibli em forma de jogo para dois
Exclusivo de Nintendo Switch 2 mergulha fundo nas inspirações de anime em uma experiência marcante
Nenhum jogo conseguiu replicar a experiência de um anime antigo como Orbitals, novo exclusivo de Nintendo Switch 2. A semelhança vai além da estética — muito bem executada por sinal — e permeia elementos mais sensíveis, como a narrativa, os temas, quesitos técnicos e até mesmo a jogabilidade. Das sequências de ação aos momentos contemplativos, Orbitals parece uma versão futurística de Nausicaä do Vale do Vento, clássico do Studio Ghibli. Uma excelente aventura de anime na forma de um jogo multiplayer competente, mesmo que imperfeito.
Ficha Técnica

Título: Orbitals
Plataformas: Nintendo Switch 2
Data de Lançamento: 3 de outubro
Gênero: Cooperativo
Desenvolvedora: Shapefarm
Distribuidora: Kepler Interactive
Descrição: Dois jovens vagam pelo espaço em busca de uma forma de proteger o seu povo do extermínio.
O que esperar de Orbitals?

O segredo para traduzir tão bem algo tão abstrato quanto uma vibe de anime antigo está tanto na composição da equipe de desenvolvimento quanto em suas inspirações. O diretor criativo Marcos Ramos convidou um veterano da indústria, Hidetoshi Yoshida, para dirigir os storyboards, para que todas as cenas de história tivessem a exata energia das animações retrô. Além disso, o processo criativo do próprio Marcos sempre começa no papel, como era antigamente, o que garante que todos os personagens tenham proporções, cores e técnicas que existiriam em produções da época. Mas o mais importante são as inspirações que Marcos se apropriou para construir o universo dessa aventura.
Entre as principais referências de Orbitals, segundo o próprio diretor criativo, estão Porco Rosso: O Último Herói Romântico, filme do Studio Ghibli de 1992, e Neon Genesis Evangelion, o controverso e filosófico anime de 1995. Com Porco Rosso, o jogo aprende o ritmo mais lento, a história repleta de silêncios contemplativos e personagens carismáticos, cheios de camadas e introspectivos. A forma como isso é executado lembra mais outros projetos do estúdio, como o já citado Nausicaä e também O Castelo no Céu, mas as semelhanças são as mesmas. De Evangelion, vem o ar misterioso, o enredo propositalmente vago que se revela aos poucos, os dilemas éticos e a maturidade narrativa.
Acima de tudo, construir uma base sólida no ombro destes gigantes ensinou Orbitals a confiar em seu público. Não só para desvendar a história em seu próprio ritmo, como também em aprender a como interagir com o seu mundo.
O game não traz uma galáxia vasta e aberta. Pelo contrário. Essa é uma história em que as coisas já deram errado no passado e os protagonistas são apenas sobreviventes nas ruínas do universo em busca de uma forma mais confortável de sobreviver. Isso se converte em um espaço-sideral cheio de asteróides, estações abandonadas e lixo espacial. Um cenário bem mais criativo e diferente do que se costuma encontrar na maioria dos jogos.

Lembra um pouco o mangá O 11º Tripulante, especialmente pelo clima de desconfiança, paranóia e perigo constante que estes espaços invocam. Ao mesmo tempo, desbravar essas ruínas com uma dupla traz um conforto contrastante, que torna a aventura bem menos sufocante do que poderia ser. Uma sensação complexa, cheia de nuances, de uma forma que só os animes antigos sabem fazer.
A dinâmica entre os protagonistas é deliciosa. Maki e Omura são dois jovens determinados e empolgados, mesmo que tenham personalidades quase opostas. Apesar das diferenças, eles confiam cegamente um no outro, o que inspira os jogadores a fazer o mesmo. Afinal, essa é a única maneira de superar os desafios de Orbitals.
Jakob Lundgren, diretor geral do jogo, trabalhou nos mais conhecidos jogos cooperativos da atualidade, como A Way Out e It Takes Two, e traz toda essa experiência para a jogabilidade de Orbitals. Só que ao invés de apenas repetir o que já funcionou antes, Jakob decidiu tornar as coisas ainda mais desafiantes e evitou ao máximo interações passivas entre os jogadores. Daquelas que um precisa esperar o outro terminar uma atividade antes de ajudar. Em Orbitals, na maior parte do tempo, os jogadores precisam coordenar em tempo real para vencer.

Mesmo que seja desafiador e possa precisar de algumas muitas tentativas para serem superados, esses obstáculos são os mais memoráveis de toda a aventura e exigem confiança total entre os jogadores. Cada um precisa focar em fazer a sua parte bem e confiar que a sua dupla também seja eficiente em seu trabalho. Essa é a única forma de atravessar um rio de lava, por exemplo, em que seu amigo cria um caminho de pedra em tempo real ou então um corredor de fogo em que sua dupla precisa alternar entre protegê-los das chamas e usar o escudo como plataforma para que consigam progredir.
Os desafios também são variados e não exigem apenas proeficiência em jogos de plataforma, mas testam as habilidades em ritmo, concentração e outros pontos. Assim, está sempre mudando qual jogador é o mais competente da dupla, equilibrando a dinâmica para ninguém se sentir superior em tudo. Ou frustrado demais. É uma harmônia interessante que só poderia ser criada por alguém com bastante experiência em jogos do tipo.
Entretanto, nem todas as dinâmicas são lá essas coisas. As mais criativas fazem o uso de uma ferramenta especial, que permite assumir o controle de máquinas de uma forma parecida com Super Mario Odyssey. Assim, os jogadores se deparam com as interações mais absurdas possíveis, o que traz um frescor absurdo ao game. Uma hora se está controlando um olho mágico que revela segredos, como aquele item de Ocarina of Time, em outra é uma topeira que precisa arremessar baterias perdidas como em uma partida de vôlei. Quando você vê, está controlando uma torre inteira para ajudar seu aliado a progredir. O problema é que essa ferramenta aparece apenas nas fases finais. Os desafios anteriores não são lá tão criativos.

As demais ferramentas até que evoluem bastante durante a progressão da história, com novas funções surgindo a todo instante. O problema é que, com uma variedade tão arbitrária de habilidades, fica difícil entender as vezes qual ferramenta é a certa para progredir. Umas duas vezes ficamos perdidos no jogo, procurando um caminho, só para descobrir que a solução era um tanto aleatória. Mesmo ao encontrar a saída, ainda não soou como uma conquista e sim mera sorte. A quantidade de minigames disponíveis ao longo do jogo também é bem limitada, em especial a comparação a rivais do gênero, e nenhum deles é particularmente inovador, o que deixa uma estranha frustração em um jogo que costuma acertar tanto.
A duração do jogo é outra pequena decepção. Toda a aventura foi completada em duas noites, jogando com meu amigo com muitas pausas para comer e tudo mais. Quando as coisas estão começando a engatar, a história surpreende com a reta final, que lembra bastante a experiência do final de Evangelion e deve causar reações similares nos jogadores. Gostei bastante de como as coisas se desenvolvem, especialmente no quesito narrativo, mas a batalha final é bastante empolgante também.
Um ponto surpreendente, inclusive, são as batalhas de nave espalhadas entre as fases. Elas vendem muito bem a sensação de cooperação que se passa em filmes como Star Wars ou animes como Cowboy Bepop, em que um personagem fica encarregado de manobrar e outro cuida da artilharia. Extremamente dinâmicas, essas disputas vão exigir que um jogador se concentre em dar a vida em desviar de ataques inimigos enquanto confia que a dupla vai dar conta de exterminar os adversários. O jogo ainda acha maneiras de propor desafios únicos para cada um, o que torna a experiência ainda mais imersiva e especial.

Para coroar, o jogo é muito bem dublado em Português do Brasil. O estúdio Shapefarm contratou o Estúdio Vera Cruz que escalou vozes bastante conhecidas do público de anime, que vende ainda mais a sensação de estar vivendo uma dessas aventuras. Os atores combinam bastante com os personagens, especialmente o trio principal, e garante que todos por nossa terra vão entender as nuances dessa história e suas camadas. Outro acerto imenso.
No fim, Orbitals é uma obra-prima essencial para todo fã de filmes de anime e pode surpreender quem busca um bom jogo cooperativo. A experiência sempre ativa de cooperação é desafiadora na medida certa e estimula um nível de confiança que não é exigido de outros jogos do tipo. Pena que nem todos os obstáculos funcionem, mas quando a maior crítica que se pode fazer a um jogo é que gostaria que durasse mais tempo, é sinal que temos uma verdadeira pérola da biblioteca do Nintendo Switch 2 em mãos.
Orbitals

Veredito
O sonho dos fãs de filmes de anime e uma adição satisfatória para quem gosta de jogos de dupla.
Chave cedida gentilmente pela assessoria de imprensa do estúdio Shapefarm.
