Review | Granblue Fantasy Relink: Endless Ragnarok brilha nos extremos ao ser o “laptop da Xuxa” e o “tigrinho” dos RPGs ao mesmo tempo

Jogo oferece o básico do básico do gênero em sua base e um gostinho viciante na expansão Endless Ragnarok

Existe uma teoria no marketing que explica a proposta de Granblue Fantasy Relink: Endless Ragnarok. Ironicamente, seu nome é Estratégia do Mar Azul, como o próprio título. A ideia central é simples: ao invés de competir pelo mesmo público que todo mundo, é mais esperto investir em quem ninguém está mirando. E é assim que o jogo consegue se destacar em um gênero tão saturado. Granblue Fantasy Relink não quer agradar todo mundo. Ele mira nos extremos: quem nunca jogou um RPG e quem não consegue largar desse gênero. 

O que esperar de Granblue Fantasy Link?

Granblue Fantasy Relink Endless Ragnarok

Não há comprometimento em fisgar quem já gosta de RPGs e tem uma relação mais casual com esse meio. A aventura começa suave, engatinhando como quem dá os primeiros passos no gênero, e termina em um festival de grinding e chefes com resistência colossal, feitos só para os mais dedicados fãs desse estilo de game. Um comprometimento que só é reforçado com a expansão inédita Endless Ragnarok.

Para os navegantes de primeira viagem, a trama apresenta o básico do que se pode esperar de uma típica jornada de RPG. Um cenário fantástico medieval, um vasto elenco de personagens cativantes, um combate em que números de atributo importam mais que qualquer coisa e vilões que querem acabar com o mundo por algum motivo. Com direito até a um rival edgy em uma jornada de redenção.

Quem já jogou qualquer jogo da série Tales of ou outro título desses com estética de anime, tipo Xenoblade Chronicles, tudo pode parecer um tanto simples e até mesmo genérico. Granblue Fantasy Relink não propõe nenhuma revolução, o que o torna ideal para quem quer entender o apelo desse gênero. Afinal, essa é uma versão expressa e condensada de tudo que há de melhor e pior em um RPG.

Granblue Fantasy Relink Endless Ragnarok

A exploração, por exemplo, é um dos pilares da campanha principal. Mas não acontece naqueles vastos mundos abertos em que é possível se perder tentando achar o seu caminho. As regiões são isoladas, como fases de um jogo mais tradicional. Na teoria, isso poderia render áreas mais caprichadas, cheias de detalhes e atividades extras. Porém os mapas finais entregam o mínimo que poderia se esperar: lugares com temas óbvios, como neve, florestas e desertos, sem recompensas ou incentivos para explorar. Como se fossem feitos para serem atravessados uma vez de forma super linear.

A sensação geral dessa campanha inicial é esta. De uma mera formalidade para preparar os novatos para o que está por vir no fim do jogo. E como burocracia não anima ninguém, tudo na campanha principal parece te empurrar para frente. Como se quisessem se livrar de uma obrigação mesmo.

Os combates, por exemplo, não demoram a se tornar repetitivos por conta da ausência quase completa de estratégia necessária para sair vitorioso. Pelo menos com inimigos comuns, que não são sequer muito variados. A falta de punição ao ser derrotado só reforça a sensação de que repetir qualquer ataque até a vitória é mais que o suficiente para vencer. 

Granblue Fantasy Relink Endless Ragnarok

Esse aparente desinteresse pelos próprios desafios só parece dar uma trégua pela metade da campanha, a partir da área desértica, em que os chefes ficam cada vez mais elaborados. Em contra-partida, as fases ficam cada vez mais curtas e diretas, revelando a realidade muito mal disfarçada que Granblue Fantasy Link dispensa esse lado mais dinâmico de um RPG. Ele está mais interessado na luta contra os chefes, que é o prato principal do final do jogo.

Por essa pressa para chegar no grand finale, a própria duração da campanha não se estende além do estritamente necessário, o que rende um dos RPGs mais curtos da atualidade. A trama principal não ultrapassa muito mais que 10 horas de duração, outro ponto positivo para quem está começando no gênero. Para quem não quiser se estender, não é aquele game que exige um comprometimento de meses a fio para extrair uma experiência completa. 

Granblue Fantasy Relink vai direto ao ponto e entrega uma fórmula básica executada brilhantemente para cativar marinheiros de primeira viagem. Só então, após se certificar que todos estão na mesma página, que o jogo se dedica a mimar os mais viciados no gênero com um ciclo infinito de batalhas contra os chefes.

O que esperar de Endless Ragnarok?

Granblue Fantasy Relink Endless Ragnarok

Quando a história principal se encerra é que o verdadeiro jogo começa. Para de ser um beabá de RPG para se tornar quase que uma tortura contemporânea focada em otimizar atributos, danos de ataques e builds ao máximo para ter o rendimento perfeito em batalhas contra oponentes cada vez mais resistentes e agressivos. Um prato cheio para os masoquistas de plantão que adoram jogos como Monster Hunter.

Jogar em equipe é o mais recomendado, em grupos de até quatro jogadores. Funciona muito bem quando se tem amigos com quem jogar, mas tentar compartilhar essas missões com desconhecidos na internet se torna um trabalho hercúleo. Simplesmente porque não tem pessoas o suficiente jogando nos servidores. E olha que é compartilhado entre as plataformas.

Ainda assim, é aqui que Granblue Fantasy Relink realmente brilha. A ampla variedade de personagens finalmente mostra todo o seu potencial, revelando formas completamente únicas de encarar o combate. Uma personagem, por exemplo, invoca animais espectrais ao completar combos que liberam efeitos extras a seus ataques especiais. Outro exige um timing perfeito para continuar os combos de forma mais eficiente. Uma das lutadoras foca em combate aéreo e pode continuar a atacar por tempo indeterminado enquanto continuar acertando o ritmo de seus ataques, quase como se tivesse jogando Silksong. E ainda tem um personagem que simplesmente se transforma em um mini kaju em combate, igual no anime Kaiju No. 8, que incentiva uma jogabilidade completamente agressiva.

Granblue Fantasy Relink Endless Ragnarok

A forma como que cada personagem foi construído para trazer uma experiência única ao combate impede que as lutas se tornem repetitivas, mesmo quando se está encarando a mesma missão de novo e de novo para conseguir um item essencial para fortalecer seu personagem. Sem estar preso a uma história, essa parte final do jogo desafia o jogador a ficar cada vez mais forte em um intenso grinding que lembra tempos áureos dos antigos jogos online, como Grand Chase, que a repetição e insistência era o que o tornavam mais fortes.

A expansão Endless Ragnarok dobra a aposta neste formato e traz ainda mais personagens e missões para alimentar o vício de quem quer aperfeiçoar os seus personagens ao extremo. Os limites de poder também são extrapolados, com novas melhorias para armas que já foram levadas ao máximo e aos personagens também, com habilidades que vão além da árvore inicial de poderes.

Entre os conteúdos inéditos está uma nova campanha que traz uma nova ameaça aos céus de Granblue Fantasy. Porém, como no jogo base, este não é o lado melhor desenvolvido da expansão. A história não é nada memorável, mas ajuda a contextualizar os novos personagens, que são muito divertidos em combate. O destaque fica para o novo atirador, que consegue se diferenciar dos demais personagens de longo alcance de uma forma um tanto criativa.

Granblue Fantasy Relink Endless Ragnarok

Talvez a adição mais subestimada e que mais contribui para a experiência geral do jogo é o novo modo roguelike. Disponível desde a metade da campanha principal, permite que o jogador enfrente uma série de desafios distribuídos de forma aleatória para conquistar prêmios que ajudam a melhorar os personagens. É uma forma mais interessante de otimizar os heróis com menos repetição desconexa e uma jogabilidade mais cativante. No fim, Endless Ragnarok oferece mais do que os veteranos já gostaram no jogo principal, o que torna a experiência ainda mais satisfatória para essa parcela dos jogadores.

Granblue Fantasy Relink: Endless Ragnarok

Gabriel Mattos

Granblue Fantasy Relink Endless Ragnarok
“Meu Primeiro RPG”
Visual
Roteiro
Jogabilidade

Veredito

Um RPG perfeito para novatos que nunca tocaram no gênero e para quem já jogou tanto RPG que já não tem mais salvação.

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Repórter de cultura pop experiente com experiência em games, coberturas de eventos, entrevistas e críticas de cinema.

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