Metroid Prime 4 supera todas as expectativas e prova que esperar por um jogo, para que ele fique completo, vale muito a pena
No longínquo ano de 2017, durante a E3 (que descanse em paz), a Nintendo anunciou que Metroid Prime 4 estava sendo oficialmente desenvolvido para o Nintendo Switch. Apenas mostrando uma arte visual do que (não) seria a logo oficial do jogo. Quase dois anos depois, em janeiro de 2019, um vídeo da própria Nintendo anunciou que o desenvolvimento até então do projeto havia sido reiniciado. A Retro Studios, até então distante desse episódio da franquia, iria assumir a partir dali. Mas tudo seria recomeçado, do zero.
Agora, em dezembro de 2025, 8 anos e meio depois, Metroid Prime 4 Beyond chegou ao Nintendo Switch e Nintendo Switch 2, e… Bom… Valeu a espera.
Ficha Técnica

Título: Metroid Prime 4 Beyond
Plataformas: Nintendo Switch e Nintendo Switch 2
Data de Lançamento: 4 de dezembro
Gênero: Metroidvania e FPS
Desenvolvedora: Retro Studios
Distribuidora: Nintendo
Descrição: Samus Aran, uma caçadora de recompensas espacial, precisa escapar de um lugar alienígena que existe além do tempo e espaço.
O primor da série Metroid

Prime 4 é o sexto jogo (pois é) da sub-série criada pela Retro Studios para levar Metroid para o mundo 3D. Metroid Prime Hunters ninguém esquece que existe, mas Metroid Prime: Federation Force também está lá e sua história segue a dos jogos numerados. Toda a aventura dessa espécie de imenso spin-off se passa entre Metroid e Metroid II, e, exatamente por isso, os Metroids são abundantes em toda a saga. Foi tudo antes de Samus exterminar toda a raça (spoilers?) no segundo jogo.
Depois de explorar novos planetas, visitar uma realidade paralela, derrotar uma versão sombria de si mesmo, agora encontramos nossa heroína ajudando a Federação Galáctica. Sua missão é transportar um artefato misterioso encontrado nos confins do espaço. Porém, quando obviamente eles são atacados e a missão falha, este mesmo artefato transporta Samus para um planeta misterioso, que aparenta não estar em nenhum mapa galáctico. Ele simplesmente existe fora do espaço-tempo conhecido.
Criaturas deste planeta a chamam de “Ser Escolhido” (em português mesmo, o que é novidade), e acreditam que ela será a responsável por salvá-los de uma extinção iminente. Samus então precisa descobrir onde (ou quando) está, ajudar quem a resgatou, e voltar para casa. Toda a história será desenvolvida em cima dessa civilização nova e misteriosa.
Metroidvania, só que diferente

Quem já jogou algum dos jogos dessa sub-série vai estar em casa e familiarizado com Metroid Prime 4. Quem chegar agora vai precisar se adaptar a muita coisa, principalmente às novidades que esse quarto (ou sexto) jogo traz.
Não se preocupe em começar por aqui. Afinal, cada jogo da franquia Metroid, especialmente os Prime, contam uma história com começo, meio e fim. Todas as ligações feitas entre os jogos acontecem em cenas extras que só são desbloqueadas para os mais ávidos, que coletam 100% dos itens. Então ninguém vai ficar perdido ou confuso. No máximo não vai conhecer algum personagem e inimigo, o que ainda assim acaba sendo explicado dentro deste novo contexto.
Já estamos há 18 anos de distância de Metroid Prime 3, que foi lançado no Wii, então algumas melhorias de mecânicas, especialmente as de qualidade de vida e acessibilidade, se faziam necessárias. Agora, além do Modo Fácil, introduzido no remaster do primeiro Prime, também contamos com salvamento automático, além das estações espalhadas pelo jogo, e um sistema robusto de marcações de pontos de interesse no mapa, fazendo com que o vai e vem do gênero criado pela própria série seja mais prático.

Mas a maior diferença desse jogo para qualquer outro Metroid, não apenas os Prime, é a inclusão do famigerado mundo aberto. Decisão que, obviamente, fez muito fã torcer o nariz, mas que surpreendentemente funciona para a história e, principalmente, para um jogo de exploração planetária.
Em certo momento do jogo, somos transportados para um imenso deserto, e ganhamos acesso à Vi-O-La, a moto de Samus, que foi introduzida no primeiro trailer de gameplay do jogo. Sem ela, seria praticamente impossível explorar o mapa aberto que leva às áreas de interesse da aventura.
Os controles da moto são precisos e não a deixam fora de controle. Existe inclusive um extenso tutorial de batalha sobre duas rodas que precisa ser executado para que você consiga a licença para pilotar Vi-O-La. Só então o jogador consegue acesso ao extenso mapa explorável de forma mais livre.

O mundo em si, parece vazio inicialmente, mas com o tempo mudanças vão acontecendo no cenários, e o jogador percebe que existe um propósito e um fundamento para que aquilo aconteça e funcione de forma satisfatória. Mas o principal da aventura ainda acontece em muitas indas e vindas em estações fechadas e claustrofóbicas, mantendo a essência da série viva, e trazendo ambientações clássicas que já conhecemos, como florestas, montanhas de lava, laboratórios congelados, estações eletrificadas e assim por diante.
É aqui que o level design de Metroid Prime brilha. Muitas vezes vemos jogos que são traduzidos para o 3D de forma bagunçada e parece não funcionar como deveria. Todas as tentativas acabam sendo frustradas (te amamos, Sonic), mas a Retro Studios soube como pegar aqueles mapas confusos e achatados da série e transformar em lindos mapas confusos e em três dimensões.
O vai e vem é orgânico. A leitura do mapa parece confusa, mas assim que você entende como ele funciona, percebe que não havia outra forma de fazer. Foi uma tentativa ousada e arriscada, levar para o 3D e ainda transformar em primeira pessoa. Mas é difícil imaginar Metroid de outra forma depois disso.
Jogue do seu jeito
Uma revolução que surgiu desse salto para uma nova dimensão foi na forma de controlar a famosa caçadora de recompensas, tendência que se mantém no novo game.
Os dois primeiros Metroid Prime foram lançados no GameCube, e, portanto, ofereciam um gameplay com dois analógicos: um para movimento do personagem e outro para movimento da câmera. O terceiro jogo foi lançado no Wii, e, como a combinação Wiimote e Nunchuk possuía apenas um analógico, o movimento da câmera foi transferido para o pointer do controle. Uma coleção com os três jogos chegou ao Wii, permitindo que os jogadores experimentassem todos nesse formato.
Agora, no Switch, o jogador pode escolher entre o modo clássico (botões analógicos) e o modo moderno (controle por movimentos). Ambos os modos são híbridos, compatíveis com a real novidade que surge no Switch 2. O novo sistema da Nintendo incorpora o elogiado esquema de controles do PC e permite comandar a mira da caçadora de recompensas pelo mouse.
Basta em qualquer momento apoiar o Joy-Con 2 em uma superfície plana que o jogo entende automaticamente a intenção do jogador. Esse novo esquema de controle oferece uma precisão um pouco maior de movimento ao custo de uma execução mais trabalhosa. Cabe ao jogador pesar o custo-benefício de cada um deles.

A mira pelo mouse é precisa em uma superfície totalmente plana: uma mesa, por exemplo. Então é, de certo modo, custoso utilizá-la enquanto o gameplay flui. Contudo, esse sistema também funciona como acessibilidade, e pode ser útil para pessoas com pouca mobilidade, permitindo que o controle direito esteja sempre apoiado na superfície, dessa forma ele consegue movimentar a câmera e mirar de forma eficiente.
Então se você achar que não funciona para você, sempre existe a opção de não utilizar. Mas para quem precisa ou gosta, este modo funciona até mesmo ao apoiar o controle na perna ou em um sofá, por exemplo, mas a precisão dos movimentos fica prejudicada. Todo o restante funciona de modo familiar. De forma especialmente prática e orgânica para os novatos.
A quantidade absurda de botões presentes nos dois Joy-Con e no Pro Controller permitiu que dois botões fossem associados ao pulo e dois ao tiro, facilitando a escolha do jogador ao que o deixa mais confortável. Samus possui uma clássica variedade de tiros, com fogo, raio, gelo, além dos mísseis, e o novo tiro de raio psíquico, que pode ser teleguiado e, além de muito útil, é uma mecânica que funciona bem e é divertida de ser executada.

E aqui cada um joga do seu jeito mesmo e no seu ritmo. O jogo possui um modo Fácil, um modo Normal, e o Difícil que precisa ser desbloqueado. Diferente da maioria dos Metroids que funciona no modo “vai lá e se vira”. Fácil também é uma forma de acessibilidade e sempre será bem-vinda em qualquer jogo. Não vai tirar o desafio de quem o quer, porque ele está lá nos outros modos de jogo.
Samus com sotaque
Mas a maior novidade de Metroid Prime 4, que infelizmente não estava presente em Metroid Prime Remaster inclusive, é a presença da Nintendo Brasil localizando o jogo. Apenas nos textos, não na dublagem, mas de qualquer forma oferecendo ao jogador a imersão que a série Metroid sempre propôs em seus extensos arquivos de leitura altamente explicativos, tudo em português do Brasil, permitindo que a história possa acontecer a fazer sentido para todos os jogadores.
Tudo com o cuidado que vem sendo empregado em diversos jogos da era Switch, com nomes, ideias e trocadilhos não apenas traduzidos literalmente, mas realmente localizados para que façam sentido na nossa língua.

O jogo tem muitas conversas faladas que podiam ter sido dubladas, assim que as falas de Pauline foram em Donkey Kong Bananza, mas vamos devagar e torcer para que isso aconteça em projetos futuros, exclusivos do Switch 2.
E por falar em Switch 2, esta análise foi feita no Nintendo Switch 2 Edition. Por mais impressionante que a série Prime sempre tenha sido — fruto do trabalho de uma das melhores desenvolvedoras em atividade — é praticamente impossível não se impressionar com a beleza e a técnica empregada em Metroid Prime 4. Ao ponto de muitas vezes se perguntar: “como isso tá rodando no Switch 1?”.
Não desmerecendo o console capaz de rodar obras inexplicáveis como The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom e Xenoblade Chronicles 3, claro. Jamais. A questão é que fica evidente que todo o desempenho do Switch 2 está sendo utilizado neste título. Um bom vislumbre do que temos no horizonte para franquias que ainda não receberam seus jogos para o novo console.
Grandona, sem medo e muito bem acompanhada

Ao transportar Samus para a terceira dimensão, a Retro Studios transformou as batalhas da caçadora em duelos épicos, com chefes que ocupam salas inteiras. Em Metroid Prime 4 não é diferente, e os desafios da nossa heroína espacial estão cada vez maiores.
Durante o jogo, Samus vai encontrar outros membros da Federação Galácticae e é quase impossível não perceber o carinho e a referência que existe aqui por Metroid: Other M (Wii). O único jogo que, até então, havia introduzido tantos personagens humanos, com tantas falas explicativas e tantas linhas de diálogo.
Beyond resgata essa vibe e ainda coloca esses personagens para agir a favor da heroína, ajudando-a em momentos chave sem jamais atrapalhar sua aventura, que sempre foi bastante solitária. Desta vez, temos uma bela turma de desajustados e um robô. Um desses personagens, inclusive, é responsável por causar um vai e vem entre as áreas, melhor integrando a jornada típica do gênero metroidvania ao enredo.
É interessante ver Samus criando esse tipo de vínculo, recebendo feedback e ajuda, e não apenas sendo a heroína absoluta de tudo. Todos sabemos que ela é. Mas ela também é parte de uma Federação e é bom ver essa instituição em ação na prática de tempos em tempos, não apenas em textos descritivos.
Ao infinito e além

Metroid é uma série que muitas vezes parece que não tem o carinho que merece por parte da Nintendo, com lançamentos muito esporádicos, decisões duvidosas, anos e anos sem um episódio novo significativo. Mas quem acompanha e conhece sabe que todos os jogos possuem uma qualidade acima da média e a série Prime está um patamar ainda acima de tudo isso.
Resta esperar que a Nintendo remasterize os demais títulos para que a coleção fique completa no Switch. E também o Other M, porque não. Afinal de contas, ele tem um pézinho singelo dentro da série Prime. Mesmo não sendo produzido pela Retro, ele soube absorver o que ela tinha de melhor e misturar com uma jogabilidade diferente.
A Retro Studios sempre foi primorosa e talentosa em todos os seus projetos, e o cuidado que teve ao longo das décadas com Prime é prova disso. E esses seis anos de desenvolvimento de Prime 4 nos entregaram o maior e melhor jogo dessa sub-série.
“Beyond” não funciona apenas no nome do jogo, mas mostra que esse jogo está além, está acima do que já tinha sido feito. Assim como deve ser. Sempre vamos esperar um material maior e melhor do que o anterior, e se tem uma desenvolvedora que sabe como isso funciona e entrega isso, essa é a Retro Studios, e ela assim o fez com Metroid Prime 4: Beyond.
Metroid Prime 4: Beyond

Veredito
Metroid Prime 4: Beyond retoma a experiência de excelência da franquia em um novo console, com novidades interessantes para novos e velhos fãs da franquia.




